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O momento “Mein Kampf” de Trump na ONU

Bill Van Auken
7 de novembro de 2017

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Publicado originalmente em 20 de Setembro de 2017

O discurso oferecido na terça-feira por Donald Trump à sessão de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York não tem precedentes na história da ONU ou da presidência americana.

Falando diante de um corpo mundial de pessoas criado com o objetivo declarado de poupar a humanidade do “flagelo da guerra” e fundado sobre os princípios elaborados nos julgamentos de Nuremberg dos líderes nazistas, o presidente americano assumiu abertamente uma política de genocídio, declarando que estava “preparado, motivado e capacitado” para “destruir completamente” a Coreia do Norte e seus 25 milhões de pessoas.

O fato de ninguém na assembleia propor a prisão de Trump como criminoso de guerra ou mesmo mandar o valentão fascistóide sentar-se e calar-se, é uma medida da bancarrota da própria ONU.

“Os Estados Unidos têm uma grande força e paciência, mas se for forçado a defender-se ou a seus aliados, nós não teremos escolha a não ser destruir totalmente a Coreia do Norte,” disse Trump à audiência. “O Homem-Míssil [o apelido imbecilóide de Trump para o líder norte-coreano Kim Jong-un] está em uma missão suicida para si mesmo e seu regime. Os Estados Unidos estão prontos, motivados e capacitados…”

Como em todas as suas declarações públicas, as observações megalomaníacas de Trump começaram com um suposto reavivamento das esperanças dos EUA desde sua eleição em novembro último, o qual se expressou, ele argumentou, na bolha das ações de Wall Street e na aprovação de um orçamento militar de 700 bilhões de dólares.

No centro do discurso de Trump estava a promoção de sua ideologia da “América Primeiro”. O presidente dos EUA apresentou a promoção do nacionalismo como a solução para todos os problemas do planeta. “O Estado-nação continua o melhor meio para elevar a condição humana,” proclamou ele em um discurso no qual as palavras “soberano” ou “soberania” foram repetidas 21 vezes.

Ao mesmo tempo em que declarava seu suposto apoio à soberania de qualquer nação, Trump deixou claro que sua administração está preparada para lançar guerra contra qualquer nação que não se curve à ordens de Washington.

Além de ameaçar incinerar a Coreia do Norte por testar mísseis balísticos e armas nucleares, ele ameaçou abolir o acordo nuclear de 2015 com o Irã, descrevendo-o como “um constrangimento.” Ele colocou assim os EUA no caminho da guerra com o Irã, cujo governo descreveu como uma “ditadura corrupta,” um “Estado ameaçador” e “um regime assassino.”

Ele destacou também a Venezuela, declarando que sua situação interna “é completamente inaceitável, e não podemos ficar parados assistindo.” Ele acrescentou: “os Estados Unidos tomaram medidas importantes para responsabilizar o regime. Estamos preparados para tomar outras atitudes se o governo da Venezuela persistir em seu caminho para impor um domínio autoritário sobre o povo Venezuelano.”

O Ministro das Relações Exteriores iraniano Mohammad Javad Zarif respondeu em um tuíte, dizendo que “o discurso de ódio ignorante de Trump pertence a tempos medievais - não a ONU do século XXI - e não merece resposta.”

O Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, acusou Trump de buscar “uma mudança de regime pela força,” acrescentando que ele “quer governar o mundo, enquanto não consegue governar nem seu próprio país.”

Trump não fez nenhuma tentativa de explicar a contradição gritante entre sua referência à soberania nacional universal e sua reafirmação do “direito” do imperialismo americano de bombardear, invadir ou operar mudanças de regime em qualquer nação que deseje.

Na véspera do discurso, um alto funcionário da Casa Branca disse a repórteres que o presidente americano havia passado um grande período ponderando o caráter “profundamente filosófico” do seu discurso.

Que besteira! A “filosofia” do discurso, como se apresenta, é tirada da ideologia do fascismo. De fato, nenhum líder mundial ofereceu o tipo de ameaça expressa por Trump contra o povo da Coreia do Norte desde que Adolf Hitler subiu ao palanque no Reichstag em 1939 e ameaçou a aniquilação dos judeus da Europa.

O tipo de doutrina nacionalista avançada por Trump na ONU ecoa claramente as posições de Hitler e Mussolini nos anos 1930. Como escreveu Leon Trotsky em seu artigo de 1934, “Nacionalismo e a Vida Econômica”:

“O fascismo italiano proclamou o ‘egoísmo sagrado’ nacional como o único fator criativo. Depois de reduzir a história da humanidade à história nacional, o fascismo alemão colocou-se a reduzir a nação à raça e a raça ao sangue… O valor duradouro da nação, descoberto por Mussolini e Hitler, é agora lançado contra os falsos valores do século XIX: a democracia e o socialismo.”

Os paralelos não são acidentais. O texto do discurso carrega as digitais visíveis do alto conselheiro e escritor de discursos de Trump Stephen Miller, que parece trabalhar melhor com um exemplar do Mein Kampf de Hitler por perto e à mão.

Assim como essa promoção de nacionalismo reacionário nos anos 1930 foi a expressão ideológica do caminho do capitalismo mundial rumo à guerra, isso também ocorre hoje.

As ameaças contra a Coreia do Norte e o Irã estão ligadas a objetivos geopolíticos muito mais amplos do imperialismo americano, como indicou Trump em suas denúncias indiretas à China e à Rússia por manter comércio com Pyongyang e em sua referência ao Mar do Sul da China e à Ucrânia. Além disso, os ataques ao Irã e as ameaças de rasgar o acordo nuclear de 2015 estão dirigidas não apenas ao governo em Teerã, mas também aos antigos aliados de Washington na Europa Ocidental, que já estão procurando novas fontes de lucro baseadas em acordos de comércio e investimento com o Irã.

A ausência, na sessão de abertura da ONU, do presidente russo Vladimir Putin, do presidente chinês Xi Jinping e da chanceler alemã Angela Merkel foi significativa. Sem dúvida eles pressentiram o que se passaria e temiam as consequências políticas domésticas de serem vistos dando legitimidade, através de sua presença no auditório, para as agressões de Trump.

O presidente francês, Emmanuel Macron, que falou brevemente depois de Trump, ofereceu um discurso direitista promovendo a “guerra ao terror,” mas foi forçado a opor-se diretamente a posição dos EUA sobre a Coreia do Norte, advertindo sobre uma escalada militar e pedindo diálogo. Em relação ao Irã, ele se opôs a qualquer recuo em relação ao tratado nuclear. A imprensa francesa comparou a divisão às tensões que emergiram durante a escalada da administração Bush rumo à guerra contra o Iraque.

As ameaças hoje, no entanto, são muito maiores. O discurso de Trump tornou inequivocamente claro para o mundo que o governo que ele encabeça é composto por criminosos. Depois de ter traçado muitos limites, ameaçando guerras em virtualmente todos os continentes, a própria demagogia de Trump leva quase inexoravelmente a escaladas e à ação militar.

O discurso incluiu uma passagem advertindo o mundo de que as Forças Armadas americanas não estão mais subordinadas ao controle civil. “De agora em diante,” Trump declarou, “nossos interesses em relação à segurança ditarão a duração e escopo das operações militares, e não objetivos e cronogramas arbitrários traçados por políticos.”

Em outras palavras, os militares vão decidir, e não funcionários eleitos - a característica fundamental de uma ditadura militar. Que esse “princípio” seja aceito pelo Congresso dos EUA, que aprovou o orçamento de 700 bilhões de dólares do Pentágono e ao mesmo tempo derrubou uma emenda que conclamava o corpo legislativo a retomar seu poder constitucional para declarar guerras, é uma medida da putrefação da democracia americana.

A consolidação de tal governo, com a figura repulsiva do Donald Trump à frente, é o resultado de um quarto-de-século de degeneração econômica e política, combinada com guerras e intervenções militares sem fim empreendidas com o objetivo de reverter a erosão da hegemonia global do capitalismo americano.

Contradizendo a visão apresentada pelo discurso de Trump de um grande momento hitleriano para o nacionalismo, o secretário-geral da ONU Antônio Guterres precedeu o presidente americano com dirigindo-se à Assembleia Geral com a descrição de “um mundo em pedaços.”

“As pessoas estão machucadas e com raiva,” ele advertiu. “Elas vêem a insegurança aumentando, a desigualdade crescendo, conflitos se espalhando e o clima mudando.” Ele acrescentou que “os nervosismos globais em relação a armas nucleares estão no nível mais alto desde o fim da Guerra Fria.”

Essa realidade inegável encontrou expressão indireta nas próprias palavras de Trump, com sua tentativa de explorar a crise na Venezuela - um país no qual o domínio do capital financeiro é hoje maior do que era três décadas atrás - para atacar o socialismo.

“Onde quer que o verdadeiro socialismo ou comunismo tenha sido adotado, ele entregou angústia e devastação e fracasso,” disse Trump. “Aqueles que pregam os princípios dessas ideologias desacreditadas só podem contribuir para o continuado sofrimento dos povos que vivem sob esses sistemas cruéis.”

Um quarto-de-século depois da dissolução da União Soviética e da proclamação do fracasso do marxismo e do triunfo do capitalismo, a ameaça do socialismo se tornou uma preocupação central de um presidente americano ao fazer uma afronta reacionária e militarista diante das Nações Unidas.

Trump fala por uma oligarquia financeira e empresarial que se sente sob cerco. Ela teme a crescente raiva popular. Ela foi profundamente abalada pela revelação durante as eleições de 2016 de que uma ampla base social no interior da classe trabalhadora e entre a juventude é intensamente hostil ao sistema de lucros e simpática ao socialismo.

Em última instância, as ameaças beligerantes de guerra e aniquilação nuclear de Trump são a projeção na arena mundial da política de classe perseguida pela classe dominante americana internamente, e do estado muito avançado das tensões políticas e sociais nos próprios Estados Unidos.

 



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