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Egito: Manifestações contra a junta militar se alastram após massacre de torcedores

Por Johannes Stern
7 de fevereiro de 2012

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Na sexta-feira passada protestos contra a junta militar egípcia se espalharam por todo o país. Eles são uma resposta aos confrontos pró-regime que ocorreram em Port Said na quarta-feira, quando 72 torcedores do time de futebol egípcio mais famoso, o El-Ahly, foram mortos e centenas foram feridos.

No centro de Cairo milhares de trabalhadores e jovens derrubaram o muro erguido pelo exército na rua Mohamed Mahmoud durante os últimos confrontos em novembro e cercaram o Ministério do Interior. Os manifestantes reivindicavam a queda do regime e a execução do marechal de campo e chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), Mohamed Hussein Tantawi.

Sérios confrontos entre as Forças Centrais de Segurança (FCS) e manifestantes prosseguiram durante toda a noite de quinta-feira e continuaram pela sexta-feira. A FCS atacou manifestantes com gás lacrimogêneo e balas de borracha para prevenir que eles invadissem o Ministério. Há relatos de que um manifestante foi morto por um projétil e mais de 1.400 ficaram feridos.

Na cidade portuária de Suez, as forças de segurança dispararam cinco rodadas de munição verdadeira sobre multidões de manifestantes que atacavam uma delegacia de polícia. Há informações de ao menos dois mortos e muitos feridos. Os manifestantes também atacaram lojas e destruíram a fachada do Banco Canal de Suez. A Polícia isolou com arame farpado a sede das forças de segurança de Suez e um complexo do Ministério da Justiça.

Em Alexandria, o funeral do jovem Mahmoud El-Ghandour, de 23 anos, fundador da torcida organizada Ultras do El-Ahly, transformou-se em uma manifestação contra a junta militar. Os manifestantes marcharam em direção ao Comando do Distrito Norte e cantavam palavras de ordem contra o CSFA.

Em Port Said, onde o massacre ocorreu, milhares de manifestantes se juntaram em frente à sede do governo, entoando "Port Said é inocente, esta é a verdade". Essa palavra de ordem quer dizer que não eram os torcedores do Al-Masry os responsáveis pela violência, mas infiltrados trabalhando pelas forças de segurança.

Um manifestante disse ao Egyptian Independent: "Os torcedores do Ahly eram em sua maioria de Port Said. Meu irmão era um deles. Port Said está triste hoje, todos os habitantes da cidade estão tristes e sentem-se como se seus próprios parentes tivessem morrido".

Há fortes evidências de que o confronto foi um ato de violência orquestrado. Testemunhas oculares que estavam no estádio quando o El-Masry venceu o El-Ahly por 3 a 1 contaram que um policial chamou "torcedores" do El-Masry - que estavam puxando palavras de ordem de apoio a Tantawi e à junta - para irem ao campo depois do fim da partida. Alguns mostraram que o portão entre as arquibancadas e o campo haviam sido deixados abertos ao mesmo tempo que os portões do setor dos torcedores do Ahly estavam fechados. Enquanto os gângsteres atacavam os torcedores do Ahly com facas, garrafas, tacos e fogos de artifício, as forças de segurança permaneceram imóveis ao lado.
Promotores que chegaram ao estádio na sexta-feira viram que um funcionário da limpeza já havia lavado o chão e as paredes do vestuário do time visitante e removido quaisquer traços potenciais de sangue. De acordo com os jogadores do Ahly, muitos torcedores feridos do Ahly morreram no vestuário devido aos ferimentos que haviam sofrido. Dentro do próprio estádio, uma equipe forense encontrou cápsulas de bala vazias nos assentos dos torcedores do Ahly.

O massacre é reminiscente dos eventos que ocorreram exatamente um ano atrás, quando gângsteres pró-governo atacaram manifestantes com cavalos e camelos na praça Tahrir em uma tentativa de esmagar a revolução. O ataque infame foi apoiado pelos militares, que autorizaram os gângsteres a passar por suas fileiras para chegarem à praça. Porém, os jovens e trabalhadores manifestantes derrotaram os gângsteres e apenas nove dias depois o ditador que estava no poder havia muitos anos, Hosni Mubarak, foi obrigado a renunciar após uma série de greves de massas. Os Ultras do Ahly, juntamente com os Cavaleiros Brancos do Zamalek, que são torcedores fanáticos do outro time de futebol de Cairo, cumpriram um papel essencial na revolução desde o princípio. Eles participaram dos confrontos de rua contra o regime de Mubarak e seus sucessores no CSFA.

Muitos observadores acreditam que a junta organizou o massacre na partida de futebol intencionalmente na quarta-feira para se vingar e para acirrar a contrarrevolução. Saad Hagras, um jornalista do Al Masry Al Youm, acusou o CSFA e remanescentes do antigo regime, dizendo que o incidente foi "o resultado de um complô organizado com antecedência".

O diretor da Rede Árabe de Informação para os Direitos Humanos, Gamal Eid, disse ao Al Masry Al Youm que o CSFA visa semear a discórdia no Egito e que a junta seria o maior beneficiário dos eventos.

No dia 25 de janeiro, o aniversário da Revolução Egípcia, milhões marcharam por todo o Egito e exigiram a queda da junta militar e de todo o regime. As massas deixaram claro que se opõem à "transição democrática" patrocinada pelos EUA, que é apoiada por toda a elite política egípcia. Amedrontados com uma nova explosão das massas, a junta buscava obviamente instigar o gangsterismo e a violência como pretextos para justificar mais medidas de segurança.

Esse plano conta com o apoio de toda a elite dominante egípcia. A organização de direita Irmandade Muçulmana lançou uma declaração reivindicando "firmeza na aplicação da lei a todos" para acabar com "o estado de caos e desordem de segurança em todas as partes do país".

Uma coalizão de grupos de jovens, partidos de "esquerda" liberais ou pequeno-burgueses - incluindo o Movimento 6 de Abril, a União da Juventude pela Revolução, o Partido da Aliança Socialista e os Socialistas Revolucionários - participaram dos protestos na sexta-feira. Seu objetivo é controlar as manifestações contra a junta e prevenir um fortalecimento ainda maior.

Quando os manifestantes revoltados escalaram o prédio do fisco para avançar contra as forças de segurança com pedras e coquetéis molotov, as forças pequeno-burguesas de esquerda intervieram para detê-los. Amr Hamed, o porta-voz da União da Juventude pela Revolução, declarou que seu grupo conseguiu convencer os manifestantes a não ocupar o prédio. "O prédio não foi invadido. Nenhum dano ocorreu dentro dele. Convencemos os manifestantes a descer para evitar de sujar suas imagens. Não queremos que ninguém acuse nossa manifestação pacífica de danificar o patrimônio público".

A posição de Hamed e de seus aliados pseudoesquerdistas não poderia ter sido mais clara em escancarar o abismo de classe que existe entre a juventude e os trabalhadores revolucionários e os defensores pequeno-burgueses da ordem. Enquanto aqueles compreendem que a junta e o sistema que ela defende devem ser derrubados por meio de uma luta revolucionária continuada, este busca desesperadamente promover ilusões de uma "transição democrática pacífica".

Em uma declaração publicada na quinta-feira, a aliança pequeno-burguesa convoca o novo Parlamento - que é dominado por islamistas de direita e que foi eleito com baixo quórum sob o governo militar - a assumir responsabilidade política e tomar medidas que para reagir "aos recentes atos deliberados e sistemáticos e assassinato e de incitação ao caos com objetivo de sabotar e abortar a revolução", demandando que o conselho militar transferisse o poder para uma autoridade civil imediatamente.

Isso significa nada mais do que mudar a fachada parlamentar por detrás da qual a junta governa, mesmo que as próprias massas tenham deixado claro que elas exigem a queda dessa mesma junta apoiada pelos EUA.

Traduzido por movimentonn.org

 



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