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Grécia: greves continuam enquanto UE exige medidas de austeridade mais severas

Por Julie Hyland
24 de fevereiro de 2010

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Uma série de greves está em andamento na Grécia, após uma greve geral que envolveu os setores público e privado em 10 de fevereiro.

Na terça-feira, trabalhadores do Ministério das Finanças e oficiais alfandegários deram início à greve em protesto contra a imposição de medidas de austeridade do governo social-democrata do PASOK.

Centenas de trabalhadores do Ministério das Finanças e do setor aduaneiro realizaram um protesto em frente ao prédio do parlamento na quarta-feira em Atenas, carregando cartazes que diziam: "Chega! A crise não foi causada pelos funcionários públicos. A conta deverá ser paga pelos ricos."

A greve afetou as operações do governo, como o escritório de nacional de estatística e o Hellenic Capital Markets Committee, cão de guarda do mercado, além de causar perturbações generalizadas no comércio, impactando as importações e exportações. Na quinta-feira, os trabalhadores aduaneiros anunciaram que estenderiam a sua greve por mais de 48 horas e que fechariam os escritórios aduaneiros até a greve geral de quarta-feira.

Caminhoneiros que trabalham com o transporte de gasolina fizeram uma greve de 24 horas hoje, a qual, esperava-se, provocaria longas filas nos postos de combustível. Outros caminhoneiros do serviço público ameaçaram aderir à greve. Esperava-se que os taxistas também realizassem uma segunda greve de 24 horas.

Os protestos de 24 horas da última semana, realizados pelos funcionários públicos, fecharam escolas e causaram impacto sobre parte dos serviços hospitalares e de aeroportos.

Os sindicatos gregos chamaram greves parciais e ações de um dia em um esforço para conter e neutralizar a oposição popular. Nos bastidores, eles estão trabalhando com o governo do PASOK para ganhar tempo de implementar medidas de austeridade sem precedentes. No entanto, há crescentes temores entre os grupos dominantes da Grécia e Europa de que a resistência da classe trabalhadora poderia escapar do controle da burocracia sindical e de seus partidos aliados "de esquerda".

O partido PASOK, que chegou ao poder em outubro como resultado do descontentamento generalizado com o governo conservador de Kostas Karamanlis, propôs cortes nos gastos públicos, a fim de garantir aos mercados financeiros internacionais que esta medida irá reduzir o déficit do país, de uma estimativa de 12,7% do produto interno bruto (PIB) para 3% até 2012.

O primeiro-ministro George Papandreou disse que seu governo irá até "tirar sangue", se necessário. As medidas que estão atualmente sendo implementadas incluem um congelamento dos salários no setor público, um corte de 20% nas gratificações do serviço público, um aumento de dois anos na idade média de aposentadoria e impostos mais elevados.

Segundo o Wall Street Journal, o impacto total dessas medidas para muitos dos funcionários públicos da Grécia corresponde ao "corte de até 25% do salário em termos reais." Mas essas medidas ainda não são consideradas suficientemente duras pelas principais instituições financeiras internacionais.

No início desta semana, ministros das finanças da União Européia rejeitaram as medidas do PASOK e as consideraram insuficientes e avisaram que, se Atenas não cumprir com medidas de austeridade mais rigorosas, os representantes não-eleitos da Comissão Européia e do Banco Central Europeu irão efetivamente assumir o controle da política fiscal do país e impor as suas próprias condições sob o artigo 126.9 do Tratado de Lisboa da UE.

Na sua declaração, os Ministros das Finanças "emitiram uma recomendação para a Grécia, para colocar suas políticas econômicas em consonância com as diretrizes da política econômica da União e afastar o risco de comprometer o seu bom funcionamento econômico e monetário, e adotou a decisão de tornar pública esta recomendação".

A declaração insistiu que Atenas "deve garantir um ajuste orçamental de pelo menos 4% do PIB em 2010 e trazer de volta o seu déficit para abaixo de 3% até no máximo 2012". Isto envolve o que os Ministros das Finanças descrevem como um "pacote de reformas estruturais ousadas e abrangentes", que deve englobar "os salários, a reforma das aposentadorias, as reformas do sistema de saúde, a administração pública, o mercado de produtos, o ambiente empresarial, o crescimento da produtividade e do emprego."

Atenas tem até o dia 16 de março para apresentar um relatório do seu progresso para a UE, com uma nova revisão estabelecida para o dia 15 de maio e depois a cada três meses. O comissário de Assuntos Monetários Europeus, Olli Rehn, disse que os peritos da Comissão Européia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional "estarão no local, em Atenas, nos próximos dias" para verificar o progresso do governo.

O Ministro-adjunto das Finanças da Alemanha, Joerg Asmussen, disse depois que os ministros "deixaram claro que a bola está no campo da Grécia". Ele continuou: "Medidas adicionais por parte da Grécia são necessárias", acrescentando que Atenas deveria seguir o exemplo da Irlanda e da Letônia, que estão implementando cortes drásticos nos gastos públicos e nos salários.

Kurt Lauk, presidente do Conselho Econômico da União dos Democratas Cristãos, da chanceler alemã, Angela Merkel, ameaçou: "Se um país está em processo de falência, acho que temos de introduzir a regra de que eles não estão autorizados a votar enquanto eles estiverem em falência — no Conselho ou em qualquer outro assunto. "

O jornal britânico Telegraph apontou: "Enquanto o movimento simbólico para suspender a Grécia dos seus direitos de voto em uma reunião não faz nenhuma diferença prática, representa um divisor de águas constitucional e uma perda devastadora de soberania", equivalente a "suserania econômica".

Segundo o Wall Street Journal, "os bancos alemães e franceses estocam um conjunto de $119 bilhões em investimentos de risco para os mutuários gregos e mais de $900 bilhões para a Grécia e outros países vulneráveis da zona do euro: Portugal, Irlanda e Espanha."

O jornal continua: "Juntos, os setores bancários da França e da Alemanha respondem por aproximadamente metade de todo o investimento dos bancos europeus para estes países... Se Atenas estiver inadimplente, os investidores poderão questionar se os bancos franceses e alemães poderiam suportar as perdas potenciais, provocando um pânico que poderia repercutir em todo o sistema financeiro."

A insistência da burguesia alemã e européia de que não haverá resgate automático para a Grécia é em grande parte motivada por considerações políticas. Usando Atenas como um caso de teste, eles estão deixando claro para a classe trabalhadora em todo o continente que não haverá trégua na imposição de ataques draconianos sobre os empregos, salários e condições de vida que estão sendo preparados em cada país.

A mais recente disputa sobre alegações de que Atenas estava envolvida em uma série de complexos acordos financeiros com o banco de investimentos americano Goldman Sachs, destinados a mascarar o tamanho de seu déficit fiscal tem o mesmo objetivo. As acusações estão sendo usadas para pedir que a população grega — que está entre as mais pobres na UE, com uma taxa de desemprego de quase 30% entre os menores de 24 anos de idade — aceite a miséria como compensação por seus supostos "desperdícios".

Em outra declaração provocativa, Horst Seehofer, presidente da União Social-Cristã da Alemanha, um membro da coalizão governamental de Merkel, disse que Atenas não deve receber "um único euro" do dinheiro dos contribuintes alemães.

"Naturalmente, o comportamento da Grécia, vivendo além das suas possibilidades durante anos e relatando dados imprecisos para Bruxelas, não pode ser recompensado no final," disse ele.

Para Atenas, foi dado o prazo até o fim de semana para explicar os relatórios sobre o envolvimento em um acordo com a Goldman Sachs para usar $10 bilhões em permuta de moeda para ajudar a aliviar a dívida do país. Alega-se que no acordo de permuta, a Grécia efetivamente tenha recebido um empréstimo de £640 milhões que, como foi tratado como um comércio de moeda, não foi declarado em seus livros.

Alega-se que este empréstimo permitiu que a Grécia cumprisse os requisitos da zona do euro sobre o endividamento público, que fixou um limite de déficit orçamental de 3% do PIB. O país não cumpriu os critérios para a adesão ao bloco do euro em 1999, mas foi bem sucedido em 2001. O Goldman Sachs teria beneficiado a quantia de £192 milhões, providenciando a operação.

Atenas insiste que a troca não violava as regras da UE e era, na verdade, legal na época. Christophoros Sardelis, presidente da Agência de Gestão da Dívida Pública grega em 2001, disse que o benefício das transações envolvidas eram "triviais".

No entanto, Merkel chamou as acusações de um "escândalo" e denunciou que a Grécia "falsificou estatísticas durante anos". O Gabinete de Estatísticas da UE, Eurostat, ordenou que Atenas entregue informações sobre as permutas de moeda em meio a relatórios de que o não cumprimento de forma satisfatória dessas medidas pode fazer com que a Grécia seja levada ao Tribunal Europeu de Justiça, onde poderia sofrer multas altíssimas.

Comentando sobre o envolvimento da Goldman Sachs, o Comissário Europeu de Assuntos Econômicos e Monetários, Rehn, disse que "os próprios bancos também devem pedir, principalmente após a crise financeira, que isto esteja em conformidade com o código de ética."

Dado que as manobras contábeis dos principais bancos e instituições financeiras estão diretamente ligadas à pior crise econômica global desde 1930, a referência de Rehn à sua suposta "ética" abusa da credibilidade.

Da mesma maneira, o Eurostat disse não ter conhecimento sobre as permutas, até recentemente. Vários comentários apontaram para um artigo de Nick Dunbar, na revista comercial Risk em julho de 2003, que explicou: "Com a ajuda da Goldman Sachs, a Grécia vem utilizando ofertas enormes de permutas para garantir suas proporções da dívida nacional cumpram as metas da UE."

Papandreou anunciou a criação de uma comissão para investigar as transações. O movimento é, pelo menos em parte, destinado a convencer os seus parceiros europeus de que ele vai impor as medidas corretivas necessárias. Em uma reunião de gabinete informal na quarta-feira, o primeiro-ministro disse que seu governo estava "pronto para virar a página" e "reduzir os déficits consideravelmente." Sua única solicitação foi "pelo tempo necessário para que possamos implementar o nosso programa".

[traduzido por movimentonn.org]

 



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