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Revolução Cubana marca 50 anos sob a sombra da crise mundial

Por Bill Van Auken
14 de janeiro de 2009

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Publicado originalmente em inglês no WSWS em 3 de janeiro de 2009

Os líderes cubanos comemoraram os 50 anos da revolução que derrubou a corrupta ditadura de Fulgencio Batista e conduziu Fidel Castro ao poder com cerimônias relativamente pequenas e singelas.

Fidel, já doente, com 82 e tendo transferido o poder para seu irmão Raul, de 77 anos, emitiu uma declaração de apenas 15 palavras, congratulando o “heróico povo” de Cuba.

Raul, por sua vez, pronunciou um breve discurso no oeste da cidade de Santiago - local de nascimento da revolução - para uma audiência de 1.000 oficiais de Estado e convidados. Já a população de Cuba foi instruída a permanecer longe do local.

O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, e sua cópia boliviana, Evo Morales, cancelaram seus planos de visitar a ilha - aparentemente em resposta à decisão dos dirigentes cubanos de manter a população afastada das comemorações.

Grande parte do discurso de Raul Castro foi dedicado à memória dos que morreram na revolução e a uma descrição da revolução de 1959 como a realização dos ideais do líder nacionalista cubano José Marti.

Ele também relembrou a ação “doente e vingativa do poderoso vizinho” após a Revolução Cubana, desde a invasão abortada da Baía dos Porcos em 1961, passando pelos incontáveis atentados para assassinar Fidel Castro e outros líderes cubanos, até o terrorismo apoiado pela CIA e as cinco décadas de bloqueio econômico dos EUA.

A revolução, insistiu, continua “mais forte do que nunca”. E continuou: “Isso significa que há menos perigo? Não, não significa. Não vamos nutrir nenhuma ilusão. Assim como nós comemoramos esse meio século de vitórias, é tempo de refletir sobre o futuro, os próximos 50 anos serão também de luta permanente”.

“Vendo as reviravoltas no mundo contemporâneo, nós não podemos pensar que os próximos anos serão fáceis. Não digo isso para assustar ninguém, mas porque é a simples realidade.”

Raul citou um discurso feito por Fidel em novembro de 2005, alertando: “este país pode destruir a si mesmo, esta Revolução pode destruir a si mesma, mas eles [os inimigos] não podem destruí-la. Nós podemos destruí-la nós mesmos, e isso seria apenas culpa nossa”.

O tom do discurso, sem dúvida alguma, foi condicionado pelo impasse econômico pelo qual passa atualmente o regime cubano, e aponta, principalmente, para o fato de que uma crescente deterioração das condições sociais podem levar ao desassossego popular na ilha.

No último mês, o governo descreveu o crescente déficit da balança como “um assunto estratégico para a sobrevivência econômica do país”. O déficit subiu para aproximadamente 70% em 2008, alcançando estimados US$ 5 bilhões. A economia foi pega em aperto entre o aumento das importações de combustível e comida e quedas das receitas do níquel, principal exportação de Cuba. O preço do níquel tem desabado para um quinto do que foi em 2007.

Enquanto isso, a crise financeira global torna mais difícil para Havana obter novos créditos para continuar importando. Entre os produtos importando está 60% da comida de Cuba, cujos preços continuam subindo.

A crise foi agravada por três furacões que atingiram Cuba no outono passado, destruindo 500.000 lares e infringindo um prejuízo estimado em 10 bilhões de dólares.

Sem dinheiro, o Estado cubano se achou compelido a renegociar seus débitos e atrasar pagamentos para os credores estatais e privados.

Em um discurso ao parlamento cubano mês passado, Raul Castro pediu o fim dos “subsídios excessivos” e defendeu a necessidade de fazer “pressão” sobre a classe trabalhadora cubana, para aumentar a produtividade.

A média mensal de salário atinge US$ 20 e a economia têm aberto uma brecha social entre aqueles que - através do trabalho no governo, na indústria turística ou pela remessa de valores estrangeiros - têm acesso a pesos convertíveis e aqueles que não o têm. Entre os primeiros emergiu uma camada com dinheiro, enquanto muitos dos últimos são condenados à pobreza extrema. Sob essas condições, as medidas do governo carregam a possibilidade de um levante social.

A economia cubana tem sido mantida em circulação largamente através do combustível barato fornecido pela Venezuela como parte de um acordo de troca, no qual Cuba envia centenas de doutores e professores para os programas assistencialistas de Chávez. O recente colapso nos preços dos combustíveis e pressão crescente sobre a economia venezuelana colocaram a estabilidade desse acordo em dúvida.

O efeito de uma ruptura nessa relação - não tão desastrosa para Cuba quanto o colapso da União Soviética em 1991 - seria enorme. A Venezuela correspondeu a mais da metade das receitas do Estado cubano em 2007.

Além disso, o governo cubano tenta formar laços econômicos liberais com a União Européia, China e Rússia, integrando efetivamente a economia cubana no mundo do mercado capitalista. Ele também foi bem vindo novamente ao grupo dos governos burgueses da América Latina, tendo sido admitido no Grupo do Rio pela primeira vez desde a revolução.

Outra mudança em perspectiva no horizonte é a retirada de algumas sanções econômicas impostas por Washington. O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, prometeu durante sua campanha eleitoral retirar restrições impopulares impostas pela administração Bush, como as remessas de valores enviadas pelos cubano-americanos aos seus familiares na ilha. A Câmara Americana de Comércio e outros lobbies comerciais pressionam para que essa primeira retirada das sanções dos EUA contra Cuba se torne o início de uma abertura maior. Assim poderão explorar mais ainda um mercado altamente lucrativo.

A normalização das relações econômicas com os EUA pode apresentar uma maior ameaça à sobrevivência do regime Castro do que o embargo em si.

Em um período recente, toda uma geração de nacionalistas de esquerda na América Latina e pequeno-burgueses radicais na Europa e Estados Unidos aclamaram a revolução nacionalista liderada por Fidel Castro, apresentando falsamente seu regime como o estado dos trabalhadores e promovendo o castrismo como a nova via para a revolução socialista em toda parte.

A mais perniciosa tendência nesse coro pequeno-burguês a Castro foi a tendência revisionista pablista dentro na Quarta Internacional (SU-QI), que se valeu da revolução cubana para tentar liquidar o movimento trotskista e fazer com que este abandonasse suas tarefas históricas essenciais.

Segundo essa tendência revisionista, a vitória de Castro evidenciou que a revolução socialista não mais exigiria a direção ativa da classe trabalhadora, consciente das suas tarefas históricas. Um “atalho” teria surgido, em que o socialismo poderia ser alcançado por pequenos bandos de homens armados, conduzindo guerras de guerrilhas e criando um novo estado, com a classe trabalhadora e o resto das massas oprimidas reduzidas a pouco mais do que espectadores passivos.

O impacto dessas concepções políticas se provou totalmente catastrófico em toda a América Latina. A promoção da guerrilha serviu para separar os setores mais revolucionárias da juventude trabalhadora da classe trabalhadora como um todo, pavimentando o caminho para derrotas históricas e o surgimento de sangrentas ditaduras militares por todo o continente.

A ascensão de Castro e as várias nacionalizações e reformas educacionais/saúde produzidos pela revolução não fazem de Cuba um estado socialista. Cuba nunca foi um estado socialista justamente porque não foi um estado criado pela classe trabalhadora, pela tomada do poder pela classe trabalhadora. Muito mais, Cuba foi um estado imposto de cima para baixo pelo Movimento 26 de julho de Castro, em aliança com o Partido Comunista Stalinista de Cuba. O estado cubano nunca permitiu órgãos independentes e democráticos de poder dos trabalhadores e reprimiu duramente qualquer desafio à dominação política dos irmãos Castro.

O castrismo não representa o socialismo, mas uma variante radical dos movimentos burgueses nacionalistas que tomaram o poder em toda parte, como vários países da África, Ásia e Oriente Médio durante o levante das lutas anti-coloniais dos anos de 1950 e 1960. Ao final, o castrismo se provou incapaz, como seus contrapartes dos outros países, de forjar um caminho genuinamente independente do imperialismo.

Este é o resumo das observações feitas por Raul Castro. O qüinquagésimo aniversário da revolução cubana coincide com o desdobramento da maior crise do mundo capitalista em 70 anos, trazendo consigo a perspectiva de uma renovação na luta de classes internacional e na luta pelo socialismo por toda a América Latina e em escala mundial.

O regime esclerosado de Cuba vê esse desenvolvimento como uma ameaça mortal, uma vez que pode derrubar sua frágil economia e romper suas tentativas de firmar laços com as classes capitalistas dominantes na América Latina, Europa e atualmente EUA.

Mas, os trabalhadores cubanos e a juventude não ficarão imunes à radicalização política global que cresce em decorrência da crise econômica. Juntos com os trabalhadores do resto da América Latina, o sucesso de suas lutas requer a assimilação das amargas derrotas de meio século de castrismo, e a construção de um novo movimento independente e revolucionário da classe trabalhadora, baseado no programa socialista internacionalista.

[traduzido por movimentonn.org]

O autor do texto também recomenda:
O Castrismo e a Política do Nacionalismo Pequeno-burguês

 



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