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Alemanha: governo teme que crise estimule radicalização política

Por Peter Schwarz
14 de outubro de 2008

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Publicado originalmente em inglês no WSWS,org em 9 de outubro de 2008

O anunciado feito no domingo [5.10] pela Chanceler Angela Merkel e pelo Ministro de Finanças Peer Steinbrück de que o governo alemão garantirá todas as contas de correntistas particulares é uma mera declaração política, que eles não têm a menor intenção em erigir em lei.

Não haverá “nenhum processo legislativo”, confirmou o responsável pelo Tesouro, Torsten Albig, segunda-feira pela manhã. E mais: a promessa é apenas uma “delcaração política feita pela chanceler e pelo ministro de finanças”.

O responsável financeiro do Partido Social Democrata Alemão (SPD — Sozialdemokratische Partei Deutschland), Otto Fricke, disse acreditar que, sem fundamentação legal, tal garantia é praticamente sem valor. “A declaração de garantia das contas de correntistas não é nada mais do que uma declaração de intenções políticas”, disse ele. “Ela lembra as promessas do [antigo ministro do trabalho] Norbert Blüm, de que as pensões estavam seguras”. A garantia das pensões prometida pelo cristão-democrata Blüm nos anos 80 é tomada, atualmente, como exemplo clássico de promessa política furada.

A promessa de garantia feita por Merkel e Steinbrück é baseada em um cálculo econômico arriscado — que nunca serão capazes de levar adiante. Destina-se a acalmar pequenos investidores e prevenir um “corrida aos bancos”, que poderia levar ao colapso o sistema financeiro como um todo.

Se, ao contrário de suas expectativas, forem cobrados de sua promessa, ninguém sabe o que poderá ocorrer. Não existem fundos ou reservas para assegurar as ações envolvidas, cuja soma tem sido estimada em mais de um trilhão de euros. A única opção seria aumentar incrivelmente a dívida do estado, o que no passado Steinbrück rejeitava veementemente.

O que subjaz à falsa promessa feita por Merkel e Steinbrück, acima de tudo, são seus motivos políticos. Eles temem uma radicalização e um movimento à esquerda por parte da população caso paguem bilhões para resgatar bancos insolventes,

Destacado-se entre as pessoas, Merkel é aquela que agora aponto o dedo aos bancos, como se tivesse tirado lições de retórica do líder do partido de esquerda, Oskar Lafontaine. É a mesma Merkel que, cinco anos atrás, defendeu lealmente a “via de reforma” neoliberal no congresso de seu partido, a União Democrata-cristã (UDC), em Leipzig. Num encontro recente do partido em Wiesbaden, falou pelos cotovelos sobre a necessidade de o estado agir para prevenir “o que os irresponsáveis banqueiros de todo o mundo têm provocado”. Precisamos de um mercado com regras, ao invés desses mercados indomáveis “onde somente o lucro é o que conta”, disse Merkel.

Steinbrück, quem sempre assumiu os cortes dos gastos públicos como seu principal objetivo e sempre defendeu ataques ao bem-estar e aos direitos dos trabalhadores em sua “Agenda Política 2010”, tornou-, subitamente, o grande protetor dos pequenos proprietários.

Nos últimos dias, muitos comentários têm aparecido na imprensa alertando que a crise financeira está minando a confiança no estado. Após anos nos quais o governo tem considerado a desregulamentação do mercado e o desmantelamento dos ganhos sociais uma de suas tarefas principais, agora tenta se distanciar dos interesses do capital financeiro, buscando aumentar sua credibilidade.

Na edição on-line do semanal Die Zeit, Ludwig Greven expressou o temor de que a crise financeira se transforme numa “crise para a democracia”. Respondendo sua próprio pergunta — Quem governa a Alemanha, o governo ou os dirigentes do capital financeiro? — ele disse: “Para todos os motivos e propósitos, são os bancos e o mercado financeiro”.

Agora, conclui Greven, as políticas na Alemanha não têm apenas de “combater a crise ameaçadora no sistema financeiro. Deve também legitimar suas políticas, em particular as reformas sociais dos últimos anos, que aparentemente têm sido conduzidas pela fome insaciável do capital”. Cada vez mais pessoas perguntam-se, segundo ele, “porque têm de aceitar os cortes massivos nos gastos sociais e nos salários, quando é obviamente mais dinheiro do que o suficiente para resgatar os bancos”.

Se os políticos limitarem, agora, seu papel em fornecer “ajuda de emergência, ignorando os efeitos perigosos dos humores políticos”, escreveu Greven, “então a crise financeira mundial poderá produzir uma crise em nosso sistema democrático Ocidental. Seu resultado poderiam ser populistas de esquerda ou de direita, bem como perigosos demagogos...”

Heribert Prantl disse algo similar no Süddeutsche Zeitung. Para ele, a crise financeira mundial não diz respeito apenas ao mercado do dinheiro, “mas também à fé na soberania e capacidade da democracia... Não se trata apenas de tampar enormes buracos financeiros, mas também garantir que a crise do capitalismo global não se torne uma crise da democracia”.

Por enquanto, os “principais administradores do mercado do dinheiro” comportaram-se “como se a democracia fosse um playgroud para cidadãos comuns”, porque “as reais decisões têm sido feitas nas bolsas de valores”. Os gigantescos fundos para a estabilização dos mercados financeiros precisam, agora, ser “vertidos para salvaguardar e contribuir com a estabilização da democracia, assim como para dar confiança às estruturas democráticas”.

Ulrich Schäfer, também escrevendo para o Süddeutsche Zeitung, comenta que a chanceler e seu ministro das finanças comportaram-se como “vítimas de uma chantagem, onde os mercados financeiros têm tomado como refém um governo e uma nação inteira”. Ele vai além, ao comparar os mercados financeiros com os terroristas da Facção do Exército Vermelho (RAF) que tinham ameaçado o governo de Helmut Schmidt no Outono 1977.

Nenhum desses comentaristas se opõe à permissão do governo em ajudar bancos e especuladores com bilhões em fundos fiscais. Eles estão mais preocupados em manter as aparências. Querem assegurar que a raiva sobre essa injustiça não tome uma nova direção, voltando-se contra o sistema capitalista, responsável por tudo isso.

A memória das crises financeiras e bancárias dos anos 1920 e 1930 ainda está viva na Alemanha. Em 1923, a inflação em espiral destruiu as economias da classe média e levou milhões de trabalhadores à miséria, enquanto alguns industriais fizeram bilhões, como Hugo Stinnes. No outono daquele ano, a Alemanha esteve à beira de uma revolução socialista, que só não ocorreu porque o Partido Comunista estava insuficientemente preparado.

As crises bancárias de 1929 e 1931 finalmente selaram o destino da República de Weimar. Na última edição de Der Spiegel, até mesmo o Ministro do Interior, Wolfgang Schäuble (UDC), relembra essa conexão histórica. “As conseqüências da crise foram Adolf Hitler e, indiretamente, a Segunda Guerra Mundial e Auschwitz,” escreveu ele.

Contudo, Schäuble esqueceu de mencionar que a democracia já tinha sido eliminada antes de 1930 pelo Partido do Centro Alemão (Deutsche Zentrumspartei), o predecessor do seu próprio partido, a UDC. O chanceler Heinrich Brüning (Centro) jogou os efeitos da crise para cima das costas dos trabalhadores por meio de decretos de emergência; suprimiu a resistência destes, no que foi apoiado pelo Partido Social-Democrata (SPD). Isso abriu o caminho ao poder para Hitler, que foi chanceler três anos depois. Hitler foi apoiado por influentes industriais e homens de negócios, que precisaram dos Nazistas para quebrar o movimento operário.

Schäuble está bastante preparado para seguir os passos de Brüning. Sua contribuição mais importante na crise atual consiste na tentativa de legalizar o uso das Forças Armadas para operações dentro do país — um objetivo que buscou durante 15 anos. Até agora, Schäuble não tinha conseguido obter a maior parte dos dois terços necessários para aprovar a emenda constitucional, legalizando tal uso, mas o SPD neste momento transmitiu seu acordo.

Isso deve ser tomado como um sério aviso. A crise financeira internacional revelou a bancarrota do sistema capitalista, que é baseado na propriedade privada dos meios da produção e o enriquecimento de uma minoria muito pequena à custa da maioria esmagadora. Mas a elite dominante não está a ponto de abandonar os seus privilégios voluntariamente. Enquanto ela embala o público para dormir com a ilusão de que o capitalismo pode ser contido e regulado, simultaneamente prepara-se para a supressão violenta de qualquer resistência social e política.

 



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