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A compra da Chrysler pela Cerberus - o que ela significa para os operários

Por Shannon Jones
30 de maio de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 17 de maio de 2007.

O diretor executivo da Chrysler, Tom LaSorda, exigiu cortes nos benefícios médicos dos aposentados um dia depois de ter anunciado a venda da unidade norte-americana da DaimlerChrysler para a empresa de investimentos privados Cerberus Capital Management. A declaração de LaSorda, que continuará a presidir a Chrysler depois da compra pela Cerberus, confirma que a essa transação significa a preparação de um verdadeiro ataque aos trabalhadores da indústria automobilística norte-americana.

A venda da fábrica situada em Michigan para a Cerberus tem sido considerada por políticos, pela mídia e pela direção do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística como uma benção aos trabalhadores da Chrysler. Afirma-se que a mudança de propriedade contribuirá com a estabilização das operações das fabricantes e, em última análise, beneficiará os trabalhadores.

A verdade é que a Cerberus, uma empresa conhecida por tirar os bens das companhias para, dessa forma, revendê-las com lucro, está preparando brutais cortes de empregos, salários e benefícios dos trabalhadores da Chrysler. Desde a sua fundação em 1992, a Cerberus acumulou uma enorme riqueza por meio da retração, e não da expansão, de companhias que vão desde redes varejistas até companhias fornecedoras de auto-peças. Ela deixou um rastro de companhias drasticamente retraídas e desmanteladas.

No ano passado, por exemplo, a Cerberus comprou 600 supermercados da Albertson. Em alguns meses, 1.000 trabalhadores foram demitidos. Em 2004, a Cerberus comprou a rede de lojas de departamentos Mervyn. No ano seguinte, 62 dessas lojas foram fechadas e 4.800 empregos eliminados. Recentemente, uma fábrica de ônibus foi fechada no Canadá e diversas tecelagens tiveram o mesmo fim nos EUA. Ela ainda esteve envolvida com a retração da empresa de aluguel de automóveis Alamo & National.

Kevin Boyle — professor da Universidade do Estado de Ohio e notável historiador — disse ao New York Times num artigo publicado no dia 14 de maio, intitulado “A Cerberus emerge do submundo”, que a venda da Chrysler para a Cerberus “fará tremer o chão sob os pés das pessoas de uma maneira impressionante”.

O Wall Street Journal do dia 15 de maio entrevistou Peter Pestillo, o ex-diretor executivo da fabricante de autopeças Visteon e ex-encarregado de negociar com o UAW pela Volks, que disse: “este acordo da Cerberus estabelece as coisas necessárias para mudanças significativas em Detroit. Isso abalará também a GM e a Ford”. A Cerberus, continuou Pestillo, não “faz maus negócios. Eles fazem as coisas parecerem ótimas, para depois revendê-las”.

Ao contrário dos fundos mútuos, os fundos de investimentos privados operam fora do controle do governo, pois suas ações não são expostas publicamente. Eles investem enormes somas de capital privado em busca de altos lucros no mais curto prazo. Empresas como a Cerberus operam de tal forma que o lucro não é obtido por meio do desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias, mas através da apropriação dos bens das companhias.

Um artigo publicado na edição do dia 14 de maio da revista alemã Der Spiegel, intitulado “Hellhound Snaps up Chrysler” dizia o seguinte: “empresas de capital especulativo como a Cerberus investem ou compram outras companhias que estão prestes a declarar falência. Depois de comprá-las, eles assumem o controle como maiores acionistas, racionalizam o negócio e as revendem — ou então sugam o máximo que puderem, deixando-as em pedaços. Originalmente, a Cerberus comprava a dívida das candidatas à falência diretamente dos seus credores. Assim, sua história sempre esteve relacionada às empresas que enfrentavam problemas. Empresas como a Cerberus ganharam o apelido de ‘fundos abutres’”.

Uma das empresas que a Cerberus tem interesse é, sem dúvida, a rentável unidade de financiamento de automóveis Chrysler Financial. A Cerberus já tem a propriedade sobre a maior parte da General Motors Acceptance Corporation Financial Services (GMAC), que foi comprada da General Motors no ano passado. É muito provável que a Cerberus tentará comprar a Chrysler Financial, cujo valor estimado é de US$ 5,5 bilhões, separá-la da Chrysler e fundi-la com a GMAC, criando uma grande empresa com potencial de alta rentabilidade.

Os proprietários da Cerberus obtiveram enormes lucros desde que a companhia iniciou seus negócios em 1992. O fundador da companhia, Stephen Feinberg, trabalhou na empresa de compras Drexel Lambert, conhecida na década de 1980 por popularizar os chamados “títulos refugo”. Em 1999, a revista Magazine considerou Feinberg um dos mais ricos norte-americanos com menos de 40 anos. Naquela época, sua fortuna era de US$ 274 milhões.

De acordo com uma reportagem de 3 de outubro de 2005 na BusinnessWeek, alguns dos altos funcionários da Cerberus recebem mais que US$ 40 milhões por ano. Um artigo na CNN Money de novembro de 2006 observou que empresas de investimentos privados tiveram retorno de 22,5% de seus investimentos, sendo que a média alcançada pelas companhias incluídas na lista das 500 empresas Standard & Poor’s foi de 6,6%.

Estes lucros extraordinários seriam impossíveis nas operações mais tradicionais, assim como na produção e venda de automóveis. O funcionamento de empresas como a Cerberus freqüentemente envolvem transações complexas e arriscadas, que não têm absolutamente nada a ver com a criação de valor real.

Um artigo publicado na edição do dia 16 de março de 2006 no USA Today afirma que o segredo das empresas de investimentos privados “é o uso da dívida — normalmente setenta centavos de cada dólar investido por elas. Pelo fato delas assumirem dívidas em nome das companhias adquiridas, as empresas de investimentos privados liberam seu próprio dinheiro para ser aplicado em novos investimentos, maximizando, assim, seu potencial de lucro”.

Em alguns casos, os administradores das empresas de investimentos privados foram acusados de realizar empréstimos às companhias que eles haviam comprado, a fim de obterem polpudos pagamentos a si mesmos, não se importando com as conseqüências que isso traria à companhia que recebeu o empréstimo.

A razão do crescimento dos fundos de investimento é o imediato retorno do capital investido. Após o colapso do mercado de ações em 2000, os fundos de investimento se tornaram uma preferência dos investidores que buscam altos lucros.

As empresas de investimentos privados têm conseguido, cada vez mais, capital oriundo dos fundos públicos de pensão, que representaram cerca de um quarto de todo dinheiro acumulado pelas empresas de investimentos privados no ano passado. De acordo com uma reportagem publicada no dia 15 de maio no New York Times, entre os investidores da Cerberus estão os fundos de pensão da polícia e dos bombeiros de Los Angeles e os fundos de aposentadoria dos trabalhadores das escolas públicas da Pensilvânia.

Portanto, os fundos de pensão dos trabalhadores estão sendo utilizados para ajudar a realizar a compra e a destruição das companhias, eliminando assim empregos e benefícios de outros trabalhadores.

Futuramente, dada a natureza altamente especulativa dos investimentos privados, a crescente transformação de fundos de pensão em empresas de investimentos privados estará expondo os benefícios de aposentadoria dos trabalhadores a riscos significativos. Já existem rumores sobre a existência de uma “bolha de dívida dos investimentos privados” (Boston Globe, May 1, 2007).

Quem dirige a Cerberus?

Uma rápida análise dos dirigentes da Cerberus evidencia o caráter social reacionário dessa empresa. Feinberg reuniu uma equipe de administração composta por indivíduos da política e dos negócios, cujos nomes estão relacionados às demissões e outras políticas empregadas pela classe dominante norte-americana e internacional nas últimas décadas.

*O presidente da Cerberus é John W. Snow, ex-secretário do tesouro de Bush. Snow liderou a proposta de diminuir os impostos para os ricos. Tendo a simpatia de Bush, Snow presidiu o conglomerado de ferrovias chamado CSX Corporation.

* O ex-vice-presidente republicano, Dan Quayle, é outro notável da Cerberus. Desde que entrou na Cerberus em 2000, ele se dedicou às operações internacionais, utilizando os seus contatos políticos para facilitar as compras no Japão e na Alemanha.

*O ex-secretário de defesa, Donald Rumsfeld, também é um investidor na Cerberus, de acordo com uma reportagem de 2001.

* David Thursfield, um membro influente da equipe da Cerberus ligada à indústria de automóveis, construiu sua reputação na Ford, como um selvagem cortador de custos. Sua pressão para forçar os fornecedores a reduzirem os preços produziu tanta tensão com a administração da Ford que ele foi forçado a deixar a companhia em maio de 2004, mês em que ele entrou na Cerberus.

* Uma figura nova na Cerberus é Wolfgang Bernhard, um ex-executivo da Chrysler e da Mercedes Benz. De acordo com um artigo publicado no dia 14 de maio no New York Times, “em ambas as companhias ele brandiu o machado e cortou custos, promovendo a discórdia entre os trabalhadores sindicalizados e executivos”.

* Um outro importante membro da equipe, que colabora com as operações da Cerberus na Europa, é o ex-ministro de defesa, Rudolph Scharping, considerado um conselheiro. Scharping foi afastado do governo em 2002 por estar envolvido em diversos escândalos.

Os elogios da burocracia do UAW à venda da Chrysler a Cerberus, afirmando que isso atende os “melhores interesses” dos trabalhadores, demonstram de maneira muito clara os interesses reacionários aos quais o UAW serve.

 



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