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Para terceirizar 55.000 empregos, a Telekom Alemã aumentou a jornada de trabalho e reduziu os salários

Por Andréas Reiss
20 Marzo 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 13 de março de 2007.

De acordo com informações da imprensa, a economia alemã está “florescendo” e o número de desempregados diminuindo. Entretanto, tais notícias não conseguem ocultar o que está por trás desta “melhora”. Praticamente ao mesmo tempo em que a Airbus anunciou seus planos de cortar 10.000 empregos, a alemã Telekom apresentou suas próprias medidas de reestruturação.

Em 28 de fevereiro a Telekom anunciou que iria terceirizar aproximadamente 55.000 empregos por meio de uma organização do trabalho criada recentemente. A companhia, sob o nome de “T-Serviço”, está prestes a se tornar a maior proprietária subsidiária da Telekom alemã e a assumir toda a sua força de trabalho ligada à operações de internet. Simultaneamente ao anúncio da terceirização, a Telekom alemã revelou seus planos de aumentar a competitividade do preço de seus serviços. Para os trabalhadores da Telekom, esta manobra significará um ataque brutal às condições de trabalho. Haverá o aumento da jornada de trabalho, que passará das atuais 34,5 para 40 ou 40,5 horas semanais. De acordo com a companhia, os salários permanecerão “constantes”, o que significa uma redução do salário por hora trabalhada.

O número exato de trabalhadores que serão afetados pelo esquema é ainda incerto. Várias fontes, incluindo representantes da companhia não identificados, figuras do ramo empresarial e da mídia, declararam que mais de 25.000 trabalhadores serão transferidos para a nova organização. Aqueles que não forem terceirizados enfrentarão um processo de reestruturação dentro do departamento onde trabalham. Na noite imediatamente após o anúncio, o quadro de supervisores da companhia, que inclui representantes dos sindicatos, aprovou os planos do presidente da companhia, Klaus Zumwinkel. Dentro de grandes empresas alemãs, isto não é comum, uma vez que partidos de oposição geralmente procuram estabelecer algum tipo de acordo.

Milhares de trabalhadores reagiram ao plano indo às ruas se manifestar por diversas vezes. O setor de serviços do sindicato Verdi, reagiu ao plano de redução de custos anunciando medidas de resistência e greves. Entretanto, o anúncio feito pelo sindicato deixou bem claro que ele não se opõe aos fundamentos do plano e que se trata apenas de conquistar algumas concessões. A terceirização está ligada aos esforços do governo de reorganizar esta empresa, que é parcialmente estatal e parcialmente privada, a fim de proporcionar as maiores taxas de retorno para os investidores por meio da redução de custos.

Em 1995, durante a onda de privatizações da década de 1990, vários setores do antigo Correio Federal da Alemanha foram transformados em empresas de economia mista, através da venda limitada de ações ao público. Uma delas foi a Telekom alemã, que deixou de ser propriedade exclusiva do governo federal após a primeira oferta no mercado de ações, no outono de 1996.

O governo alemão, porém, manteve forte controle sobre a organização, possuindo 32% das ações. O governo está agora envolvido a fundo no plano de reestruturação. O jornal Süddeutsche Zeitung publicou a seguinte declaração de uma fonte anônima dos “círculos governamentais”: “nós queremos um campeão nacional neste setor que, agindo mundialmente, terá todas as condições para isso”. O plano do diretor executivo, Obermann, “convenceu o quadro de supervisores. Ele fez um bom trabalho até agora. É excelente que ele esteja reerguendo a empresa”.

Desde a privatização, a Telekom alemã esteve à mercê da competição internacional. Para todas as empresas que hoje atuam no mercado de ações, isto significa enormes pressões: por um lado, elas devem continuamente oferecer os menores preços no sentido de atrair e manter os clientes, por outro, elas devem satisfazer os interesses dos investidores para manter os lucros e os preços das ações num alto patamar.

A pressão dos investidores — o Grupo Blackstone

Em ambos os lados, a Telekom alemã foi não muito bem sucedida. Os lucros caíram de 5,6 bilhões de euros em 2005 para 3,2 bilhões de euros em 2006. No último quadrimestre do ano passado, a companhia apresentou uma perda recorde. Isto resultou em pressões massivas dos investidores, sobretudo do Grupo Blackstone, que no ano passado comprou por meio da empresa estatal Instituto de Crédito para a Reconstrução (KfK), 4,5% das ações da Telekom alemã, passando a fazer, através de um representante no quadro de supervisores, uma forte campanha pela reestruturação da companhia.

A venda de ações para a Blackstone — uma companhia orientada exclusivamente para a obtenção de lucro — foi uma tentativa do governo de usá-la como um meio de acelerar os esforços de reestruturação. Anteriormente, houve várias demonstrações nos círculos políticos que alertaram a respeito da possibilidade da Telekom alemã cair em mãos de companhias estrangeiras de telecomunicações. O mercado, entretanto, reagiu positivamente à venda para a Blackstone, elevando em 4% o preço das ações.

Logo após a compra, a Blackstone se tornou a maior competidora do mercado. Kai Uwe Ricke, antigo presidente da Telekom, foi demitido. Seu sucessor, René Obermann, foi considerado como alguém que poderia “levar a companhia para cima”.

Vale a pena observar melhor a Blackstone. Um de seus antigos executivos é Roland Berger, cujo nome é sinônimo de programas radicais de cortes de custos e do implacável corte de empregos. Ron Sommer, antigo presidente da Telekom alemã, também trabalha para a Blackstone.

O mandato de Sommer como presidente causou a ruína de milhares de pequenos investidores, que compraram ações da Telekom alemã com a idéia de que este seria um grande “investimento para o futuro”. Mas, depois de uma série de transações não lucrativas e da correção da intencional supervalorização das propriedades estatais, as ações da companhia caíram muito abaixo do seu preço de compra.

Apesar do governo afirmar o contrário, a maioria das pessoas dos círculos do mercado se anteciparam a Blackstone, comprando mais ações na Telekom, desempenhando um papel ainda maior nestas operações. Chris Oliver Schickentanz, um especialista do Banco Alemão a respeito da Telekom, afirmou que a Blackstone é famosa por buscar, a longo prazo, controlar as companhias e que a “fantasia de conquistar” o controle da Telekom poderia se tornar realidade.

O esforço da Blackstone em deter o controle majoritário ficou evidente no exemplo da American Chemical Company Celanese. Ao assumir o controle acionário, a Blackstone organizou uma desvalorização radical dos negócios centrais da empresa, notadamente suas operações nos EUA, comprando em seguida a empresa por um preço bem abaixo do mercado. Logo após, a Blackstone recebeu um empréstimo de 500 milhões de dólares por meio da companhia. Após receber o empréstimo, ela vendeu imediatamente suas ações, ocasionando uma tremenda perda para os pequenos investidores. Na edição de 2006 intitulada de O Livro Negro do Mercado de Ações, a Organização Alemã para a Proteção dos Investidores resumiu a atitude da Blackstone da seguinte maneira: “uma companhia pode ser espremida e seca utilizando-se muitos métodos. Este foi um deles”.

Contudo, o Departamento Alemão de Finanças, dirigido pelo Partido Social Democrata Alemão (SPD), não concordou com esta avaliação. No último ano, aproximadamente 12 meses depois do presidente do SPD, Franz Müntefering, ter lançado sua vergonhosa polêmica do “gafanhoto” contra os fundos de ações, tendo a Blackstone como um de seus alvos principais, o departamento de Finanças aprovou a venda das ações da Telekom precisamente para este grupo.

Peter Steinbrück (SPD), Ministro das Finanças na época, disse: “eu fico feliz que uma organização como a Blackstone, um investidor estratégico que se preocupa em aumentar o valor e a lucratividade das companhias, tenha agora se juntado à Telekom”. E ele prossegue: “é um excelente dia para a Telekom e um ótimo dia para muitos investidores”. Assim, ficou evidente que investidores estrangeiros também podiam comprar ações da Telekom. Apesar do SPD denunciar oficialmente estas organizações como sendo do tipo “gafanhoto”, elas recebem um tratamento cuidadoso e a proteção deste partido.

No ano passado a Telekom alemã perdeu 2 milhões de conexões de telefones para o seu concorrente. Seus produtos são considerados muito caros e seu serviço de baixa qualidade.

A pressão do capital financeiro, através da participação direta nas companhias com o objetivo de extrair o máximo delas no prazo mais curto possível, significa apenas que, sob as condições do capitalismo global, são os trabalhadores que têm que arcar com o ônus.

 



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