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Fechamento das fábricas da Chrysler atinge Newark, em Delaware

Por André Damon
12 Marzo 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 27 de fevereiro de 2007.

No dia 14 de fevereiro, a Chrysler anunciou a sua decisão de fechar a fábrica de Newark, no estado de Delaware - o que causará a demissão de 700 trabalhadores até o segundo trimestre deste ano. A previsão é suspender as operações até 2009. O fechamento é parte de um plano de reestruturação que ocasionará a destruição de 11.000 empregos nos EUA e mais 2.000 no Canadá.

A fábrica de Newark, que tem mais de 315.000 metros quadrados, emprega hoje 2.100 trabalhadores, que perderão seus empregos assim que a fábrica for desativada. Esta fábrica produz os veículos de alto padrão e capacidade: o Dodge Durango e o Chrysler Aspen; veículos deste tipo, caracterizados como utilitários esportivos, tem tido uma redução nas vendas nos últimos anos, pelo fato dos clientes estarem preferindo veículos movidos a combustíveis alternativos. Recentemente a fábrica recebeu investimentos de 180 milhões de dólares e ostenta níveis de produtividade muito acima da média. Quando ela fechar restará apenas mais uma fábrica montadora de carros no nordeste dos EUA, região na qual já houve seis na década de 80.

O impacto econômico do fechamento será significativo. A fábrica contribui com 6,8 milhões de dólares para o estado de Delaware por meio da arrecadação de impostos e paga aproximadamente 136 milhões de dólares em salários anualmente. De acordo com o Centro de Pesquisa e Análise de Demografia aplicada da Universidade de Delaware, a fábrica traz 300 milhões de dólares em benefícios para o estado, menos do que os 800 milhões que gerava quando operava com toda a sua capacidade. “O fechamento de uma fábrica desta escala no estado de Delaware trará conseqüências sem precedentes” declarou a um jornal local William Latham, professor de economia na Universidade de Delaware.

O que se estima é que com a eliminação do segundo turno, outros 400 trabalhadores que prestam serviços através da cadeia de fornecedores serão diretamente afetados, e que a eliminação do último turno afetará outras centenas de trabalhadores. Dois dos fornecedores de peças da fábrica já anunciaram que serão obrigados a demitir logo após o fechamento da fábrica.

Além dos trabalhadores da montadora e das empresas fornecedoras, o fechamento afetará centenas de trabalhadores prestadores de serviços e pequenos empresários que dependem desse círculo de clientes. James R. Malin, dono da Malin’s Market and Deli, disse ao jornal local: “eu passei por muitas tempestades aqui, mas esta será a maior de todas”. No começo dos anos de 1990, a Deli ganhou centenas de dólares entregando comida aos diaristas da fábrica.

Michael Adams, um trabalhador da planta vizinha da Lear, fornecedora de peças, disse ao WSWS (World Socialist Web Site): “a planta da Lear em Newark produz acentos para os Durangos montados na Chrysler. Nós provavelmente teremos muitas demissões quando a produção for reduzida nesse ano, e ainda mais demissões quando a fábrica fechar. Isso afetará os negócios dos prestadores de serviços que se estabeleceram nas redondezas”.

Igualmente devastadora será a perda da assistência médica e de outros benefícios conquistados pelos trabalhadores metalúrgicos durante décadas por meio das greves. Um médico assistente da unidade de emergência de um centro médico vizinho disse ao nosso repórter: “quando as pessoas não têm plano de saúde, elas evitam procurar ajuda médica e esperam até o último minuto para tratar problemas de saúde urgentes. Na maioria das vezes elas simplesmente não vão ao médico e esperam que os problemas se resolvam por si mesmos. Nos consultórios nós atendemos pessoas sem plano de saúde entrando em crise pelos corredores, porque elas adiaram o tratamento por muito tempo”.

Quando atuava na capacidade máxima, a fábrica de Newark empregou mais de 5.000 pessoas e atingiu o segundo lugar no ranking das maiores empregadoras do estado, perdendo apenas para a companhia química DuPont. A fábrica começou a funcionar no começo dos anos de 1950 como produtora de tanques para o exército americano. Ao final da guerra da Coréia, a Chrysler expandiu a fábrica e transformou-se em produtora de veículos para a comunidade civil. Ela começou a reduzir a produção nos anos de 1990 e desde então tem eliminado seu terceiro turno.

Os efeitos do fechamento serão combinados com um recente episódio de demissões locais em ambos os setores de produção e serviços. Em 10 de fevereiro, JP Morgan Chase anunciou sua decisão de eliminar 147 empregos na região. Essa notícia se somou a outra anunciada no último mês a respeito da demissão de 100 trabalhadores do suporte técnico e do setor administrativo do Banco da América, em Newark, medida que é parte de um programa de reestruturação iniciado com a fusão com o banco MBNA, em 2005. No mesmo mês, a Avon cosméticos anunciou sua decisão de demitir 350 trabalhadores e fechar o seu centro de distribuição em Newark até 2009, o mesmo ano em que a Chrysler planeja fechar a sua fábrica.

A eliminação dos empregos com salários decentes - numa cidade onde o custo de vida é 15% mais alto do que a média nacional, e o custo da habitação é de 295.000 dólares - terá um imenso impacto social. Mais de 20% dos 30.000 habitantes de Newark já vivem abaixo dos níveis oficiais da linha da pobreza - o que representa o dobro da média do estado, que é de 9,2%, e 60% mais alta do que a média nacional.

Contrastando com tudo isso, a Universidade de Delaware estabelecida em Newark fez caridade, no ano escolar de 2004-2005, aos seus executivos com o mais amplo pacote de compensações de todas as universidades públicas dos Estados Unidos, forrando os bolsos do Presidente, David Roselle, com aproximadamente um milhão de dólares em salário e bônus. Roselle chefiou um programa de privatização e corte de custos que foi responsável pelo rebaixamento dos salários dos trabalhadores temporários e empreiteiros, reduzindo o orçamento da universidade em 32 milhões de dólares. Com um quinto da população de Newark vivendo na pobreza, estes números comprovam que Roselle foi pago para ajudar a colocá-los nesta situação.

 

Aumento da Jornada e Concessões

Na seção de opinião do periódico local News Journal, o senador democrata Tom Carper encorajou os trabalhadores remanescentes da fábrica a trabalharem mais e mais a fim de aumentar a produtividade e aperfeiçoar as “relações trabalhadores-administração” - leia-se ‘aceitar cortes no pagamento e nos direitos’ - tentando apaziguar os ânimos e reafirmar as esperanças na Chrysler, que então, segundo ele, poderá reconsiderar sua decisão.

Além disso, o senador afirmou que “os dirigentes locais e estaduais, que inovam fazendo uma revisão geral muito necessária no programa de compensações aos trabalhadores de Delaware, devem continuar tentando encontrar outras maneiras de cultivar um ambiente de trabalho mais propício para a criação de empregos e para a preservação dos empregos daqui, particularmente respeitando os empregos na produção”. Em essência, Carper reivindica que o Estado forneça ainda mais benefícios-esmolas para a Chrysler, tirando-os dos bolsos dos trabalhadores locais e, ao mesmo tempo, convoca os trabalhadores para que devolvam todos os benefícios que conquistaram.

As chamadas reformas que foram aprovadas pelo governo este ano cortarão os direitos dos trabalhadores em cerca de 15 a 20%, com o que se espera economizar para as companhias que ainda operam no estado mais de 43 milhões de dólares. Os Democratas e os Republicanos têm apenas uma resposta à destruição dos empregos: cortes nos programas sociais e o retorno às condições de trabalho que existiam antes da construção dos sindicatos das indústrias e das reformas do New Deal.

O Sindicato dos Trabalhadores das empresas Autobobilísticas (UAW) assumiu essencialmente a mesma linha dos políticos, tanto Democratas quanto Republicanos, ao usar os ameaçadores planos de fechamento para justificar as propostas de incentivos fiscais e legislação favorável aos interesses da Chrysler. Depois dos superficiais argumentos sobre a necessidade da companhia de desenvolver produtos “que tenham apelo junto ao consumidor,” o boletim oficial número 10 da UAW sobre as demissões chega ao ponto fundamental da questão: “nós trabalharemos para assegurar que assim que o Grupo Chrysler retomar a lucratividade, nossos associados tenham a oportunidade de retornar ao trabalho”. Na prática, isto se traduz em mais concessões e aumento das jornadas, e o mais importante, o reconhecimento do direito da administração de fazer aquilo que ela achar necessário para proteger os lucros dos maiores acionistas da companhia.

A General Motors é outra companhia que tem recebido muita ajuda dos políticos locais, desde que esta anunciou o fechamento da fábrica de Wilmington, também no estado de Delaware, em 1992. O governo se uniu a UAW com a intenção de reverter a decisão da administração da companhia, por meio da oferta de amplas concessões para a companhia. No seu depoimento, o senador Carper reivindica a reativação deste ‘milagre’, no intuito de conseguir as mesmas concessões para a Chrysler.

Gary, um trabalhador da montadora vizinha da GM em Wilmington, falou ao WSWS: “a Chrysler poderia usar o mesmo truque que a GM usou em 1992 para pagar menos ao Estado. Nosso presente de natal naquele ano foi uma ‘notificação oficial de fechamento’. Eles nos disseram que a fábrica estava fechando e não havia nada que alguém pudesse fazer para reverter o fechamento, mas ela ainda está lá”.

Diversos trabalhadores da fábrica de Newark falarAM sobre o fechamento ao Fórum online do News Journal. Um trabalhador comentou que “o presidente da UAW Local 1138, Jim Fischer, encontrou um novo emprego uma semana antes do anúncio. O que acham disso?” Exclamou ele. E continuou: “Mr. Fischer publicou uma carta alguns meses atrás deixando bem claro para cada trabalhador que o futuro seria brilhante para a fábrica de Newark, dizendo para nós que a Chrysler produziria pelo menos dois novos produtos”.

Outra trabalhadora escreveu: “eu trabalho na fábrica de Newark, assim como grande parte dos membros da minha família... Nós moramos aqui, em Newark, há mais de 40 anos... meu marido trabalha há 23 anos na fábrica, e como ele não tem tempo suficiente para se aposentar, ele ‘pode’ ser transferido para outra fábrica. Eu tenho apenas 14 anos de casa, e nem ao menos terei essa opção. Eu também não poderei ir junto com ele. Será que eu receberei algum tipo de benefício? Talvez, mas ... Não se esqueçam que o Tio Sam irá tirar a sua parte antes que eu receba. E isto é apenas para aqueles que têm mais de 10 anos de empresa. Isto é justo?... E pelo que? Nenhuma pensão, nenhum benefício, nada!”

John Manley, um mecânico de Newark que recentemente se graduou na escola técnica, falou ao WSWS: “eu tenho dois tios que estão aposentados pela Chrysler. Eu posso te dizer que produzir um carro não é fácil - requer muitas habilidades específicas e experiência. Os trabalhadores da montadora merecem cada centavo do que recebem - alguns deles têm trabalhado na fábrica por 20 ou 25 anos, e eles serão trapaceados nos seus benefícios de aposentadoria. Não faz nenhum sentido que as companhias demitam milhares de pessoas apenas para obter mais lucro”.

Harry Warner, um residente local, falou ao nosso repórter: “um trabalhador que estava seguro no seu emprego hoje tem que lidar com a possibilidade de ficar desempregado e sem direito nenhum durante seis meses. Não há nenhuma garantia social real que possa auxiliá-lo. Eu sou um trabalhador qualificado da construção civil e todas as vezes que há uma queda no mercado da construção, todo mundo do setor é atingido”.

“Minha filha de 12 anos de idade e eu acabamos de ser despejados do nosso apartamento, e nós devemos juntar 2.000 dólares para podermos nos estabelecer em qualquer outro lugar - apenas para uma entrada inicial e para ter a mínima infra-estrutura necessária. Quando os trabalhadores da Crhysler forem demitidos, muitos deles procurarão emprego no ramo da construção civil, então será ainda mais difícil encontrar algum emprego que ofereça segurança nesse setor. Muitos trabalhadores da fábrica de Newark se encontrarão na mesma situação que eu me encontro agora”.

A Universidade e a Fábrica da Chrysler

 

A fábrica de Newark é localizada no final da rua do principal campus da Universidade de Delaware. O seu pátio mais amplo fica em frente ao centro atlético. Linhas de ônibus regulares circulam entre o pátio e o campus principal, transportando estudantes entre os carros produzidos na fábrica. No caminho de volta para o pátio, nosso repórter iniciou uma conversa com o motorista de ônibus dessa linha local. Apontando para as propagandas dos veículos utilitários em outdoors na frente da fábrica, o motorista perguntou: “porque a Chrysler não faz carros que as pessoas queiram comprar? Ninguém quer estas camionetes grandes e caras, que consomem enormes quantidades de combustível. A administração tomou uma péssima decisão, e agora os trabalhadores é que têm que pagar por ela”.

Chad Belles, um calouro da Universidade de Delaware, falou ao WSWS: “a Daimler Chrysler está no vermelho há anos. Como pode se aceitar que eles demitam milhares de pessoas apenas porque eles tiveram um trimestre ruim?” E acrescentou: “foi a administração quem decidiu construir um monte de veículos utilitários esportivos que ninguém queria. Porque a maioria dos trabalhadores tem que sofrer pelos erros dos figurões? Ao fechar as fábricas, a companhia pode aumentar seus lucros e suas ações no mercado, mas os trabalhadores perdem tudo”.

Michael Green, um estudante que trabalhou 20 anos antes de voltar à Universidade, disse: “o fechamento me faz sentir que realmente temos muito pouco controle sobre as coisas que são realmente as mais importantes para as nossas vidas. Tome, como exemplo, a guerra: a maioria das pessoas quer que ela acabe, mas todos no governo a sustentam”.

“Muitos dos meus amigos do ensino médio foram trabalhar nas fábricas automobilísticas. Agora as oportunidades para toda a classe trabalhadora estão se reduzindo”.

 



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