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Marxismo, o Comitê Internacional e a ciência da perspectiva: uma análise histórica da crise do imperialismo americano.

Parte 3

Por David North
20 de julio de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 13 de Janeiro de 2005.

No fim de semana de 8 e 9 de Janeiro, 2005, o Partido da Igualdade Socialista (SEP) organizou um encontro nacional em Ann Arbor, Michigan. Esta é a última das três partes do relato de abertura feito por David North, o secretário nacional do SEP e presidente da comissão editorial do Site Socialista de Interligação Mundial(wsws.org).

Na Resolução de perspectivas adotada em agosto de 1988, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) identificou os seguintes elementos críticos de uma crise revolucionária emergente:

1) A integração do mercado mundial e a integração global do processo de produção sem precedentes históricos, das quais a corporação transnacional é a expressão institucional. Esse processo global intensificou a contradição fundamental entre economia mundial e o sistema de Estado nacional.

2) A perda por parte dos Estados Unidos de sua hegemonia econômica mundial. Essa foi uma mudança histórica que encontrou sua melhor expressão na transformação dos EUA de nação credora para nação devedora. O precipitado declínio econômico dos Estados Unidos foi a causa essencial da deterioração dos níveis de vida de largas camadas da classe trabalhadora.

3) A intensificação de conflitos inter-imperialistas, uma vez que tanto a Europa como o Japão ameaçavam diretamente a posição dos Estados Unidos no mercado mundial.

4) A rápida expansão das economias do Sudeste Asiático, que havia levado à formação de destacamentos inteiramente novos de proletariado industrial. Tendências similares estavam em curso na África e na América Latina. Do ponto de vista global, isso significava um enorme fortalecimento do potencial econômico e do poder social da classe trabalhadora.

5) O contínuo empobrecimento de grande parte do “Terceiro Mundo” e a total falência das estratégias da burguesia nacional nesses países.

6) A desestabilização da ordem política do pós 2ª Guerra, a qual decorreria da guinada a políticas de restauração capitalista por todos os contingentes de burocracia stalinista (URSS, Leste Europeu e China).

Quase 17 anos se passaram desde a publicação dessa análise. A elaboração de uma nova perspectiva mundial requer que seja feita uma avaliação da perspectiva elaborada em 1988. Primeiramente deve-se dizer que uma perspectiva não é uma nota promissória, é um prognóstico, e, como apontou Trotsky, quanto mais concreto o prognóstico, mais condicional ele é.

Como diz um ditado, previsões são extremamente difíceis de se fazer, principalmente sobre o futuro! Aqueles que querem o futuro previsto com exatidão infalível devem se dirigir ao oráculo mais próximo.

Não obstante, tendo feito essas advertências, acredito que a análise de 1988 se mantém fortemente. Iniciarei pelo último dos elementos essenciais da crise mundial que foram identificados pelo CIQI em 1988: as conseqüências revolucionárias e desestabilizadoras que antecipamos como resultantes da guinada das burocracias stalinistas a políticas pró-mercado. Permitam-me destacar que os alertas feitos na resolução de perspectivas de 1988 (e em outros documentos da época), de que as políticas implementadas por Gorbachov sob a bandeira da glasnost e da perestroika representaram um estágio de apogeu das políticas contra-revolucionárias do stalinismo, eram completamente opostas ao apoio recebido pelo último líder soviético por parte dos teóricos pablistas.

Ernest Mandel, que em 1953 foi o co-pensador mais próximo de Michel Pablo e que depois se transformou no principal teórico do movimento revisionista, saudou Gorbachov como sendo o político mais brilhante do mundo e denunciou como “absurdas” as afirmações de que suas políticas eram direcionadas à restauração do capitalismo. O protegido de Mandel, Tariq Ali, foi tão longe a ponto de dedicar um livro a Boris Yeltsin. A miopia dos revisionistas talvez possa ser, pelo menos um pouco, desculpada quando notamos que a burguesia internacional não possuía uma visão tão apurada assim em suas apreciações acerca das conseqüências das políticas de Gorbachov. Todos eles confessaram em seguida que foram completamente tomados de surpresa pela repentina queda dos regimes stalinistas no Leste Europeu e na URSS.

Revendo a análise feita pelo CIQI da crise dos regimes stalinistas, pode-se dizer sem medo de contestação que elas anteciparam as reviravoltas de 1989-1991, as quais incluem a revolta de massas dos estudantes e trabalhadores na China que culminou com o massacre da Praça da Paz Celestial. O que não poderia ser previsto era o resultado político imediato dessa crise, ao longo da qual ficou claro que décadas de repressão stalinista, dirigida acima de tudo sobre tendências socialistas na classe trabalhadora e intelligentsia, haviam deixado cicatrizes profundas na consciência das massas. Pouco restava da perspectiva socialista que uma vez inspirou largas camadas da classe trabalhadora. Com o encorajamento das burocracias, os protestos de massas no Leste Europeu e depois na URSS foram canalizados a uma linha pró-capitalista. Portanto, o resultado inicial das revoltas anti-stalinistas foi o estabelecimento de regimes restauracionistas.

Porém, isso não invalida a perspectiva que havia sido adiantada pelo CIQI, principalmente quando consideramos ramificações históricas mais abrangentes dos eventos de 1989 a 1991. O quê, na análise final, levou à repentina dissolução dos regimes stalinistas no Leste Europeu e na URSS?

Paradoxalmente, esses regimes provaram ser os pior adaptados ao impacto das tendências econômicas que o Comitê Internacional havia identificado em sua análise da crise econômica mundial, nomeadamente, da aceleração na globalização econômica. Não foi o atraso das economias do Leste Europeu e da União Soviética, e sim sua crescente complexidade que constituiu os moldes de auto-suficiência nacional autárquica cada vez mais insustentável. Mas quanto mais essas economias buscaram, sob pressão da necessidade, acesso aos recursos do mercado mundial (através da expansão do comércio, do encorajamento a investimentos internacionais e da busca de créditos), mais elas expunham suas empresas a pressões impiedosas para as quais estavam mal preparadas.

A reação inicial da classe trabalhadora soviética às políticas pró-mercado de Gorbachov foi uma série de greves altamente politizadas, principalmente dos mineiros. Cada vez mais temerosos de um movimento à esquerda da classe trabalhadora, as burocracias stalinistas fizeram o que puderam para assegurar que a queda de seus regimes colocaria o poder nas mãos de setores pró-capitalistas. E nisso eles foram bem sucedidos. Mas o resultado político das reviravoltas não altera o fato de que sua origem econômica era latente nos processos postos em movimento pela globalização.

A questão da forma política não é insignificante. Não somos indiferentes às conseqüências políticas da queda dos regimes stalinistas. A restauração do capitalismo na Europa do Leste, na antiga URSS e na China teve um impacto colossal no desenvolvimento da política mundial e, devemos acrescentar, na economia mundial nos anos 90 e na primeira década do século XXI. Para apreciarmos a magnitude das conseqüências da restauração do capitalismo, temos apenas que nos perguntar como seria o mundo hoje se os eventos no Leste Europeu, URSS e China tivessem culminado em revoluções políticas que colocassem no poder regimes democráticos e socialistas da classe trabalhadora. No mínimo, eu duvidaria muito que teríamos assistido a exuberância especulativa que alimentou o aumento nos valores das ações em Wall Street e em outros mercados acionistas durante os anos 90. Não há dúvidas que a queda da União Soviética fez crescer, ao menos temporariamente, a autoconfiança da burguesia internacional e americana. Principalmente para os Estados Unidos, o fim da URSS abriu caminhos vastos e novos ao exercício de seu poderio militar.

Porém, se considerarmos o estado do capitalismo mundial e a posição dos Estados Unidos dentro do sistema de outros elementos da crise internacional identificada no documento de 1988, e dentro do contexto ainda mais abrangente da situação pós Breton Woods tomada como um todo, um quadro mais realista se colocará à nossa vista. Todos os elementos de crise aos quais apontou o CIQI em 1988 ainda persistem em 2005. Na verdade, eles se tornaram mais intensos e perigosos.

Vista historicamente, a queda da URSS não curou as profundas doenças internas do sistema capitalista mundial e nem criou um panorama para seu desenvolvimento progressivo. Pelo contrário, ela abriu novas áreas de expansão para suas malignidades fatais. Longe de uma diminuição nas conseqüências da dissolução da URSS, a última década e meia viu uma intensificação tremenda nas contradições entre os inevitáveis processos de globalização econômica e os imperativos absolutos do arcaico sistema de Estado-Nação. Quanto aos conflitos históricos entre poderes imperialistas maiores, estes foram exacerbados pela queda da URSS, cuja existência possuía um dos fatores que, desde o fim da Segunda Guerra, haviam restringido a tendência a conflitos entre Estados capitalistas. A última década e meia também presenciou um massivo avanço no tamanho e poder da classe trabalhadora asiática.

O documento de 1988 colocou grande ênfase no declínio econômico dos Estados Unidos e na perda resultante de sua posição hegemônica. Esse processo não foi revertido durante os últimos 17 anos, mesmo apesar das tentativas dos Estados Unidos em atingir tal reversão através do uso do poder militar. De fato, a dependência cada vez mais inevitável da violência para atingir seus objetivos globais reflete não somente um declínio no poder econômico, mas um estado de profunda desorientação da elite americana ávida por dinheiro.

Eu havia me referido anteriormente à quebra do sistema Bretton Woods. Esse evento, eu havia explicado, foi um ponto de virada no destino do capitalismo pós-guerra. O fim de um sistema baseado na conversibilidade do dólar ao ouro revelou os limites do poderio econômico do capitalismo americano e colocou em movimento um prolongado processo de declínio econômico. Um exame da posição econômica do capitalismo americano, que se concentra na dimensão das dívidas e déficits dos EUA e não no poder de fogo de seu arsenal militar, indica claramente que estamos agora em um estágio bem avançado da crise que foi aberta com o colapso do sistema Bretton Woods em agosto de 1971.

Os índices objetivos do declínio americano

Durante este ano, nos círculos financeiros internacionais se expressaram preocupações crescentes sobre o estado da economia americana, em especial sobre os enormes déficits em conta corrente e na posição do investimento internacional líquido (NIIP), e sobre o impacto desses déficits no valor do dólar americano. A seriedade dessas preocupações levantadas e a queda no dólar refletem o reconhecimento de que esses problemas não são somente americanos, esses problemas são mundiais.

Mesmo após a passagem de quase 35 anos, a burguesia mundial não foi capaz de encontrar uma alternativa estável ao Bretton Woods. O sistema prevalecente de taxas flutuantes nunca passou de uma série de ajustes ad hoc, perpetuamente vulneráveis a sérias turbulências no câmbio internacional. Antes de 1971, o dólar americano garantia estabilidade financeira mundial. Desde então, ele é o principal agente de instabilidade financeira. Essa situação perigosa deriva do fato de que o dólar permanece, apesar das eternas flutuações e de seu valor nos mercados cambiais mundiais, a maior moeda de reserva mundial. Em relação a esse fato, várias observações devem ser feitas:

Primeiramente, a significância crucial das flutuações nas moedas e que estas expressam um desequilíbrio fundamental dentro de uma economia mundial fraturada pela persistência do Estado nacional. Uma organização econômica racional da economia mundial seria aquela vastamente estimulada por uma única e universalmente válida moeda mundial estável. Isso foi reconhecido na década de 40 pelos representantes burgueses com visão de maior alcance. Franklin Delano Roosevelt brincou com a idéia de propor o estabelecimento de uma moeda mundial, a qual propôs que se chamasse unitas, e pediu a seu conselheiro econômico que tinha uma queda pelo socialismo, Harry Dexter White, para que pensasse em planos para sua realização. Mas Roosevelt, sempre realista, compreendeu que essa expressão particular de seu altruísmo social instintivo não era compatível com os interesses do capitalismo americano. A proposta nunca viu a luz do dia. Significantemente, ao mesmo tempo, o economista britânico John Maynard Keynes estava desenvolvendo seu próprio esquema de uma moeda mundial, a qual chamou de bancor. Mas sem apoio americano, ela foi o que os britânicos chamariam de “algo fadado à derrota”. S Sob o capitalismo, a moeda nacional funciona como a emissária da burguesia de cujo Estado ela é emitida. Qualquer relação entre a política monetária nacional da qual tal moeda é uma representante e o bem maior da economia global é certamente bem-vinda, mas, em última análise, não deve ser esperada.

Em segundo lugar, os Estados Unidos tirou e continua a tirar uma enorme vantagem econômica da posição privilegiada que o dólar ocupa desde 1947 como a principal moeda de reserva mundial. Na medida em que o dólar é empregado como meio de transações financeiras internacionais, e é portanto intencionalmente acumulado por bancos centrais de todo o mundo, os Estados Unidos são livres dos obstáculos fiscais e financeiros que são impostos a todos os outros países. É-lhes permitido administrar déficits em conta corrente para muito além do que seria considerado tolerável para qualquer outro país. No entanto, até mesmo para os EUA, chega-se a um ponto no qual o tamanho do déficit se torna uma questão preocupante e até mesmo alarmante. Um trilhão em dívidas aqui e um trilhão lá e, de repente, estamos falando de “dinheiro de verdade”. Aí então, até os presidentes dos bancos centrais começam a passar noites em branco preocupados com o valor dos dólares acumulados em seus cofres.

Em terceiro lugar, a crise atual do dólar chega em um momento no qual a soberania global da moeda americana encara um desafio sem precedentes na história, na forma do euro. O economista vencedor do prêmio Nobel Robert Mundell escreveu recentemente que os dois eventos mais importantes na economia mundial durante os últimos 50 anos foram, primeiro, a queda do sistema Bretton Woods em 1971, e segundo, o lançamento do euro. Agora mesmo, uma porcentagem substancial e rapidamente crescente das transações internacionais financeiras está denominada em euros, o que faz crescer as pressões financeiras sobre os Estados Unidos.

Enquanto maníacos iludidos de direita como o colunista Charles Krauthammer celebram a emergência de um mundo unipolar, dominado pelos Estados Unidos, os mercados financeiros mundiais se tornaram, definitivamente, bipolares. E enquanto outro estrategista da hegemonia americana, Walter Russel Meade, ignora com desdém as objeções européias à guerra no Iraque e prevê que os Estados Unidos irão lidar com os obstrucionistas franceses no tempo certo, além de observar cinicamente que “a vingança é um prato que se serve frio”, se esquece de considerar que os Estados Unidos poderão ser obrigados a pagar pelos ingredientes desse prato em euros.

O surgimento do militarismo americano é profundamente conectado a essas tendências econômicas desfavoráveis. Através do uso de poder militar, os Estados Unidos esperam ganhar vantagens geo-estratégicas que possam ser usadas para finalizar ou reverter o declínio em sua influência econômica. No entanto, os custos de manutenção de um arsenal militar massivo e de financiamento de suas operações militares globais acabam por exacerbar o problema financeiro que subjaz a isso. Os enormes déficits orçamentários contribuem para a deterioração dos déficits em conta corrente, para um maior enfraquecimento do dólar e para a maior atratividade do euro como uma alternativa. Durante os últimos três anos, a taxa de câmbio do dólar decaiu em relação ao euro aproximadamente 35% [ver quadro 1]. Portanto, os Estados Unidos estão encurralados em um dilema político para o qual não conseguem encontrar uma saída racional.

Quadro 1. Número de euros para um dólar (médias mensais), 2001-2004. Fonte: www.x-rates.com.

Em relação ao euro, deve-se afirmar que sua atratividade é de um caráter relativo, ao invés de absoluto. O euro só aparece bem quando posto ao lado de seu feioso irmão mais velho. O projeto de unidade européia, da qual o euro é o produto, é rachado de contradições internas.

Vejamos agora os números: O déficit comercial dos Estados Unidos totalizou 420 bilhões de dólares em 2002, excedeu 500 bilhões em 2004 e espera-se que o déficit passará para muito além de 600 bilhões em 2005 [ver quadro 2]. A posição do investimento internacional líquido (NIIP) dos Estados Unidos - “o estoque total de concessões estrangeiras acumuladas sobre os Estados Unidos (subtraindo os débitos e patrimônios) menos o estoque de concessões americanas sobre o restante do mundo” [1] - aumentou de -360 bilhões em 1997 para -2,65 trilhões em 2003. Ainda não temos os números finais, mas espera-se que a NIIP estará ao redor de -3,3 trilhões em 2004. Esse número representa 24% do produto interno bruto (PIB) dos Estados Unidos. Devemos nos lembrar que a NIIP americana era positiva até 1989. Até 1995, a posição do investimento internacional líquido era de apenas -306 bilhões, mas ao final de 1999 havia alcançado -1 trilhão. A hemorragia deve continuar e os Estados Unidos continuará a administrar déficits enormes em conta corrente, o que fez com que tivessem que emprestar 665 bilhões de dólares em 2004 [ver quadro 3]. Ninguém, com a possível exceção de Bush e seus seguidores, acredita que esta situação se mantenha por muito tempo.

Quadro 2. Exportações e importações dos EUA, 1960-2002. Fonte: US Bureau of Economic Analysis

Quadro 3. Balanços de conta corrente dos EUA, 1960-2002. Fonte: US Bureau of Economic Analysis.

O déficit em conta corrente é decorrente do aumento extraordinário no déficit orçamentário federal [Ver quadro 4].

Quadro 4. Déficit/Superávit orçamentário do governo americano, 1972-2003. Fonte: Congressional Budget Office. Números a partir de 2003 são projetados a partir de julho de 2003.

Permitam-me citar um artigo de co-autoria do secretário do tesouro, Robert Rubin e dos notáveis economistas Allen Sinai e Peter Orszag:

“O orçamento federal dos EUA está em um caminho insustentável. Na ausência de qualquer mudança significativa em sua política orçamentária, os déficits do governo federal devem chegar a 5 trilhões de dólares na próxima década. Tais déficits farão com que as dívidas governamentais aumentem significantemente em relação ao PIB. A partir de então, quanto mais a geração do “baby boom” (nascidos de 1945 a 1964) alcançar a idade de aposentadoria e requerer serviços sociais e hospitalares, os déficits governamentais tendem a aumentar mais ainda. A escala dos desequilíbrios orçamentários projetados pela nação está agora tão grande que o risco de severas conseqüências adversas deve ser levado muito a sério, apesar de ser impossível prever quando tais conseqüências possam ocorrer...

“A perda de confiança entre investidores nacionais e estrangeiros (conseqüente desses déficits) poderia afastar carteiras dos ativos em dólar e assim fazer pressão para que as taxas de juros domésticas subissem”. Essas mesmas forças poderiam levar investidores e negócios a reduzirem o uso do dólar como moeda mundial principal para transações internacionais. Isso, por sua vez, limitaria a habilidade dos Estados Unidos financiarem déficits em conta corrente através de passivos em dólar e portanto aumentar a exposição líquida da nação a mudanças substanciais nas taxas de câmbio.

“Sob esse tipo de cenário, o aumento nas taxas de juros, a depreciação do dólar e o declínio na confiança dos investidores reduziriam quase certamente os preços das ações e da riqueza familiar, além de aumentar os custos de financiamento às empresas. Esses efeitos poderiam então se espalhar dos mercados financeiros à economia real.” [2]

Um estudo publicado pelo Escritório Orçamentário do Congresso (CBO), citado por Rubin, Sinai e Orszag em seu relatório, apresentou o seguinte cenário apocalíptico:

“Investidores internacionais poderão parar de investir em títulos americanos, a taxa de câmbio do dólar poderá afundar, as taxas de juro poderão subir, os preços aos consumidores poderão aumentar muito ou a economia poderá contrair-se fortemente. Em meio à antecipação dos lucros em queda e da inflação e taxas de juros em ascenso, os mercados financeiros poderão entrar em colapso e os consumidores reduzirem subitamente o consumo. Além disso, problemas econômicos nos Estados Unidos poderiam vazar ao restante do mundo e enfraquecer seriamente as economias dos parceiros comerciais americanos.

“Uma política de inflação mais alta poderia reduzir o valor real das dívidas governamentais, mas a inflação não é uma estratégia propícia em longo prazo para lidar com déficits orçamentários persistentes... Se o governo continuasse a imprimir dinheiro para financiar o déficit, a situação levaria eventualmente à hiperinflação (como aconteceu na Alemanha dos anos 20, Hungria nos anos 40, Argentina nos anos 80 e Iugoslávia nos anos 90)... Uma vez que um governo perde a credibilidade nos mercados financeiros, reconquistá-la pode se provar difícil.”

Ao apresentarmos esses números e citarmos a opinião de experts, não é nossa intenção afirmar que qualquer uma das possibilidades sugeridas acima devam se confirmar precisamente da forma indicada pelo relatório do CBO. Deve-se admitir, apesar de toda evidência contrária, que ainda há setores influentes da elite americana que não estão dispostos a seguir com a administração de Bush enquanto ela caminha cegamente para o abismo. Antes que o déficit em conta corrente chegue a 50% ou 70% do PIB e o valor do dólar caia mais 30% ou 40%, além dos 35% de queda já sofridos nos últimos 3 anos, certos setores poderosos da burguesia intervirão para exigir uma mudança no curso. Mas qual alternativa é possível? Não interessam quais políticas alternativas são propostas, todas carregam com si sérias conseqüências. Além do mais, todas as políticas alternativas, sem mencionar a continuação do curso atual, devem levar a ataques mais profundos nos níveis de vida e nas condições sociais da classe trabalhadora dos Estados Unidos.

Nunca se deve esquecer que o processo histórico fundamental do qual esses índices são uma expressão é o prolongado declínio do capitalismo americano. O destino do dólar está inevitavelmente ligado ao poder produtivo e à posição mundial da indústria americana. O auto-enriquecimento repugnante da classe dominante - de fato, o que o faz tão particularmente repugnante - é que o processo de fazer dinheiro foi ficando cada vez mais divorciado da capacidade produtiva real da indústria americana. O capital americano vasculha o mundo atrás de mão-de-obra e matéria-prima baratas enquanto a base manufatureira de sua indústria se deteriora e os níveis de vida de amplas camadas da classe trabalhadora estagnam ou se deterioram.

Quais, então, são nossos prognósticos políticos? A classe dominante americana não pode se livrar desta crise com medidas pacíficas, e isso se aplica não somente à sua política internacional, mas dentro dos Estados Unidos também. Além das fronteiras dos EUA, as ações do imperialismo americano se tornarão ainda mais precipitadas e brutais. O fato extraordinário de o governo americano ter proclamado, sem pudor, que a guerra é um meio aceitável e apropriado para se atingir metas geo-estratégicas só pode ser entendido como expressão de um conhecimento muito nítido de que não há outra forma de os Estados Unidos compensarem sua perda da posição proeminente que ocupavam nas décadas seguintes à 2ª guerra.

Se os EUA querem manter sua posição de poder imperialista dominante, eles devem assegurar seu acesso às fontes essenciais de petróleo e gás natural no Oriente Médio e Ásia. Não só isso, como também devem se colocar em uma posição na qual tenham a palavra final na alocação desses recursos críticos a outros poderes influentes, que incluem não só a Europa e Japão, mas também China e Índia. E, finalmente, devem certificar-se de que o preço do petróleo seja cotado em dólares, e não em euros.

Mas a agenda sanguinária do imperialismo americano requer o re-direcionamento de recursos financeiros essenciais da área social da economia para a área militar. Isso não pode ser atingido sem uma séria exacerbação das já preocupantes tensões sociais existentes nos Estados Unidos. O que a administração de Bush pode fazer? Não há nenhuma resposta boa e fácil: Mutatis mutandis, levando-se em consideração as evidentes diferenças, a situação que confronta a administração de Bush quando esta adentra o quarto ano de sua falsa e auto-proclamada “guerra ao terror”, é assustadoramente parecida com a que confrontava o regime nazista no fim dos anos 30, às vésperas da 2ª guerra. Como explicou um perspicaz historiador:

“... do ponto de vista [nazista], parecia não haver qualquer problema de política econômica ou social em 1938/39 para o qual houvesse soluções simples ao alcance das mãos. As preparações forçadas para a guerra desde o início de 1938 haviam esgotado as capacidades e as reservas de todos os lados... As dificuldades convergiram em uma crise geral que abraçava todo o sistema econômico e governamental; no cerne disso encontrava-se a questão de como o produto social deveria ser dividido entre as necessidades civis e militares. Em outras palavras, o governo se encontrava diante do problema político agudo de quanto sacrifício poderia exigir do povo em troca de rearmamentos e guerra.” [3]

Se isso foi um problema num país onde a burguesia havia conduzido ao poder a ditadura mais brutal e impiedosa que o mundo havia visto, o dilema político enfrentado pela administração de Bush é ainda mais agudo. Já existe uma grande oposição popular a seu governo. O próprio fato de que sua administração não encontra meios de expressão dentro das estruturas políticas existentes transmite a essa oposição social latente um caráter excepcionalmente explosivo.

A tarefa do Partido da Igualdade Socialista deve ser se basear na lógica da crise econômica mundial, antecipar uma renovação da luta social nos Estados Unidos e orientar-se pela força revolucionária da sociedade americana - a classe trabalhadora. Para aqueles que não conhecem a história dos conflitos sociais nos Estados Unidos, dos anos 1870 ao fim dos anos 1980, e que cresceram e amadureceram em um ambiente social no qual greves, confrontos com a polícia, atos de massas e outras formas típicas da luta de classes como tradicionalmente praticadas nos Estados Unidos por mais de um século são quase desconhecidas, essa insistência no papel revolucionário da classe trabalhadora pode parecer utópica, quando não totalmente estranha. Mas a experiência histórica demonstra que a imobilidade, ou, usando palavras mais apropriadas, a indiferença e a estagnação da última década e meia representam uma divergência absoluta dos padrões originais da história social americana.

Se estudarmos os índices mais básicos de conflito de classes nos Estados Unidos - estatísticas de greve - ficamos completamente chocados com o desaparecimento virtual de ações de massas durante as últimas duas décadas [ver quadros 5, 6 e 7]. O número de trabalhadores envolvidos em paralisações, o número de dias de trabalho perdidos e, mais importante, a porcentagem do total de tempo de trabalho perdido em decorrência de greves caiu a ponto de agora ser quase insignificante. Esses números são completamente atípicos em relação ao padrão básico de relações de classe enquanto elas se desenvolviam nos EUA entre 1870 e 1980.

Quadro 5. Número de trabalhadores envolvidos em paralisações com mil ou mais trabalhadores, 1947-2003. Fonte: US Bureau of Labor Statistics.

Quadro 6. Número de dias de trabalho ociosos devido a paralisações envolvendo mil ou mais trabalhadores, 1947-2003. Fonte: US Bureau of Labor Statistics.

Quadro 7. Fração de tempo de trabalho perdido em decorrência de paralisações envolvendo mil ou mais trabalhadores, 1947-2003. Fonte: US Bureau of Labor Statistics.

Qual explicação deve ser oferecida para o surpreendente declínio nos índices mais primários de conflito social nos Estados Unidos? Ou a classe trabalhadora americana se tornou completamente indiferente à queda em sua posição social e o enorme crescimento da desigualdade social durante as últimas duas décadas foi atingido sem influenciar de qualquer forma tensões e conflitos na sociedade americana, ou a estrutura política existente e as formas de organização através das quais os trabalhadores tradicionalmente expressavam seu descontentamento social trabalharam de forma a suprimir todas as manifestações de raiva da classe trabalhadora. A última é uma explicação muito mais plausível. É também a explicação correta.

A emergência da classe trabalhadora como uma força política revolucionária e independente não é só uma questão de organização, mas de consciência social, perspectiva política e visão teórica que enxergue dentro das leis da história e do modo de produção capitalista. Durante as décadas na qual gozou de influência expressiva nos Estados Unidos, o movimento trabalhista se devotou a extirpar todos os traços desses componentes intelectuais essenciais de consciência de classe. Mais do que isso, seu provincianismo nacional, combinado com uma devoção servil ao Partido Democrata, bloqueou qualquer resposta efetiva à ofensiva capitalista da década de 80 e às novas condições econômicas criadas pela globalização capitalista.

A renovação de intensos conflitos sociais e de classe nos Estados Unidos e internacionalmente é inevitável. Nossa tarefa agora é preparar-nos para a inevitável renovação do conflito de classes em escala mundial através da elaboração de uma perspectiva e um programa internacional nos quais a classe trabalhadora deva basear suas lutas, trabalhando energicamente para ampliar a influência do Site Socialista de Interligação Mundial, apresentando a uma nova geração da juventude, de estudantes e trabalhadores o socialismo e educando-os como marxistas sobre as bases da incomparável história do Comitê Internacional da Quarta Internacional.

Fim

Notas:
1. The U.S. as a Net Debtor: The sustainability of the U.S. External Imbalances, by Nouriel Roubini and Bred Setser (November 2004)
2. “Sustained Budget Deficits: Longer-Run U.S. Economic Performance and the Risk of U.S. Financial and Fiscal Disarray,” January 4, 2004, available at http://www.brook.edu/views/papers/orszag/20040105.pdf
3. Nazism, Fascism and the Working Class, by Tim Mason (Cambridge, UK, 1995), p. 106.

 



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