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Detroit em ruínas

Por David Walsh
17 Fevereiro 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 5 de maio de 1997.

Por Os bairros centrais de muitas das grandes cidades norte-americanas estão em estágios avançados de decadência. Este fato coloca novos problemas aos artistas que se preocupam com o destino dessas áreas urbanas e de seus habitantes. Como deve o fotógrafo, por exemplo, responder a esse estado de coisas?

A instalação Centro de Detroit: uma acrópole americana (Downtown Detroit: An American Acropolis), é constituída por 19 painéis do fotografo chileno Camilo José Vergara. Atualmente em exposição no Center Galleries em Detroit, o trabalho é uma tentativa de lidar com este problema. As fotos, organizadas em uma pirâmide invertida, são documentos reais do centro da cidade de Detroit, sem nenhuma tentativa de sentimentalizá-lo ou editá-lo. Em alguns casos, foram tiradas duas ou mais fotografias do mesmo local, para capturá-lo em diferentes estações do ano ("Vista Sul ao Longo da Park Avenue a partir da Rua Sibley") ou ainda para expor o aprofundamento da decadência ("Edifício Metropolitan, na esquina da Farmer com a John R."). O céu vermelho em "Fogos de Artifício-Vista Sul ao Longo da Park Avenue a partir da Rua Sibley", forma o coração luminoso da peça. Apenas um ser humano aparece, um zelador de edifício, em "O Apartamento do Sr. Broderick, 35? andar do Edifício David Broderick".

Morte das cidades

Nascido em 1944 e residente nos EUA desde 1965, há duas décadas Vergara vem fotografando o estado das cidades norte-americanas. Escreve ele: "No final do século XIX e no começo do século XX, muitos fotógrafos foram contratados para registrar o fenomenal crescimento das cidades. Hoje, são pouquíssimos os fotógrafos documentando a sua morte". Ele tem retratado as mudanças ocorridas nos bairros mais pobres de Nova Iorque; Newark e Camden, Nova Jersey; Chicago; Gary, Indiana; Detroit e Los Angeles.

O Novo Gueto Americano (The New American Ghetto. Rutgers University Press, 1995), uma coleção de fotografias e escritos, é o trabalho mais recente de Vergara a ser publicado. No prefácio ele escreve: "A malha urbana dos guetos, com sua dramática mudança de função, sua pobreza e seu tamanho, nos desafia a rejeitar a miséria humana que ela mesma representa".

A atual exposição em Detroit é um retorno a uma questão que Vergara primeiramente levantou em dois artigos em 1995. Naquele momento, ele criou um escândalo quando fez uma proposta de que doze quadras do centro de Detroit fossem preservadas como um "parque de arranha-céus arruinados", uma "acrópole americana".

O fotógrafo sustenta que a cidade tem uma região central diferente de qualquer outra. Ele nota que Detroit tem um dos maiores conjuntos de arranha-céus datados do período imediatamente anterior à quebra da bolsa de Nova Iorque no mundo, e que nenhuma outra área urbana tem um processo de decadência e abandono tão avançado. Um em cada cinco prédios na área central está vazio ou pouco ocupado, e a maioria dos arranha-céus está "praticamente vazia, muitos dos edifícios em estado avançado de ruínas... O lugar que inventou a obsolêscencia planejada se tornou obsoleto" (Planning, agosto de 1995).

Em Metropolis (abril de 1995) Vergara comenta: "Em uma versão contemporânea do declínio do império, os marginais—idosos, sem-teto, alcoólatras, viciados em drogas, loucos—vagam nas sombras dos arranha-céus vazios".

Em uma conversa por telefone, Vergara insistiu que não haveria nenhum traço de ironia em sua proposta dos parques de ruínas. Ele é um individuo sério e um artista sério, e, apesar de sua proposta não ser tão radical quanto a dos surrealistas na década de 30—que queriam que o símbolo do nacionalismo e militarismo francês, o Arco do Triunfo, fosse enterrado em uma montanha de esterco e depois explodido -, existe um elemento original e intrigante em seu projeto.

Depois de ter dito, no artigo Metropolis, que a maior parte do centro da cidade de Detroit havia sido "salvo" devido ao custo de sua demolição, Vergara introduz sua idéia: "Nós podemos transformar aproximadamente cem edifícios abandonados em um grande parque histórico nacional de lazer, um Monument Valley urbano... A vida selvagem do centro-oeste poderia invadir o parque pelo norte. Árvores, vinhas e outras plantas poderiam crescer nos telhados e para fora das janelas; cabras e animais silvestres—esquilos, gambás, morcegos, corujas, corvos, cobras, insetos—poderiam viver nos enormes prédios abandonados, somando seus chamados, choros e barulhos estridentes ao cheiro das folhas em degradação e excrementos de animais".

As autoridades da cidade se ofenderam com a sugestão: "ultrajante", "uma afronta para os cidadãos de Detroit" etc etc. A proposta de Vergara não ia de encontro ao discurso oficial, que insistia no slogan "Detroit is back!" (Detroit está de volta!). Um panfleto oficial dizia: "O prefeito de Detroit, Dennis W. Acher, prevê uma virada econômica para a cidade, através das tentativas de revitalização urbana com a participação de todos os cidadãos, organizações comunitárias e empresários...". John Slater, chefe da Comissão de Planejamento de Detroit, disse à imprensa: "Está é a proposta mais ridícula que já ouvi... É um absurdo ele dizer que esta é uma cidade fantasma". O Detroit Free Press, em um editorial titulado "A destruição do mundo?", reclamava: "Esta não é certamente a face que Detroit deseja mostrar ao mundo".

Uma carta escrita para a revista Planning observou: "O autor diz que o parque de ruínas de arranha-céus poderia ser um lugar onde se poderia ir para escapar do capitalismo e experimentar o silêncio". Como alguém consegue escapar do capitalismo em uma economia de mercado e o que levaria alguém a fazê-lo?

Em sua matéria na Metropolis, Vergara conta a reação de Michael Goodin da Crain's Detroit Business: "Uma cidade que se coloca como símbolo mundial das ruínas... jamais atrairá os turistas de Peoria, Illinois... Nunca se conseguirá atrair investimentos, empresas da área de saúde ou empresas automobilísticas para um centro feito de ruínas permanentes... Roma é uma civilização morta. A América não".

Dedo na ferida

Vergara obviamente pôs um dedo na ferida, e as autoridades da cidade tinham boas razões para responder com hostilidade. A condição desastrosa do centro da cidade de Detroit (como também, é claro, de muitos dos seus bairros residenciais), propositalmente apontada por Vergara, não é apenas algo que constrange e desmotiva os investimentos e o turismo, mas, mais do que isso, é expressão de uma profunda falência social.

A ascensão e o subseqüente declínio de Detroit foram rápidos. No momento precedente à Guerra Civil Americana, a cidade tinha 45 mil moradores; nos 50 anos seguintes a população cresceu mais de dez vezes. O crescimento mais extraordinário teve lugar entre 1910 e 1930—o que não é nada surpreendente quando se leva em consideração a evolução da indústria automobilística. A população de Detroit dobrou entre 1910 e 1920, e saltou dos 600 mil habitantes, em1930, para 1,5 milhão. O valor da produção industrial na cidade subiu de US$ 600 milhões para US$ 900 milhões no correr de um único ano—de 1915 para 1916. De 1865 para 1950, Detroit subiu da quadragésima segunda para a quinta maior cidade dos Estados Unidos.

A construção dos arranha-céus de Detroit começou após a I Guerra Mundial. A loja de departamento Hudson, a mais alta do mundo, foi completada em 1924, no mesmo ano em que o Book-Cadillac Hotel, o mais exclusivo hotel da cidade e o maior do mundo, com 29 andares. O Edifício Buhl foi completado em 1925; o Penobscot—edifício mais alto da cidade por meio século—em 1928; o Guardian Building foi inaugurado junto com o David Stott Building, em 1929.

Em 1919 Henry Ford declarou que a história era "uma fraude". Uma década depois, a revista Outlook proclamou Detroit "a cidade mais moderna do mundo, a cidade do amanhã. Onde não há passado, onde não há história". Mesmo ridicularizadas e desprezadas, as leis da história se fizeram ouvir.

Sem dúvida muitos fatores específicos contribuíram para a degeneração do centro de Detroit, que tanto avançou nas últimas décadas. Mas como se poderia rejeitar a conclusão de que, mais do que qualquer outra coisa, esta degeneração espelha o declínio da posição mundial e da autoconfiança do capitalismo norte-americano, e, especificadamente, de sua indústria automobilística? Deve ser acrescentado que a degeneração de Detroit demonstra a inadequação do mercado como um instrumento de planejamento social, o caráter particularmente anárquico da vida econômica do país e a miopia generalizada da classe dominante norte-americana.

Vergara insiste em dizer que sua proposta tem um caráter puramente estético; ele não está nem "lutando contra o Estado" nem "fazendo uma nova revolução". "Ruínas são poderosas", ele diz. "Os poetas sempre foram fascinados por elas". Ruínas são tão impressionantes quanto montanhas, "ambas recebem luz de uma maneira específica". Lembramos então que arranha-céus têm histórias diferentes das que têm as montanhas. "Você pode apreciá-los sem a história", ele responde. Sem dúvida isso é verdade, mas parece que estamos fugindo de uma questão importante.

A contemplação séria das ruínas romanas não começou até aproximadamente mil anos após o colapso deste império, e, além disso, elas não foram vistas então como objetos naturais. Como o historiador britânico de arte Francis Haskell escreve, "O passado evocado pelas ruínas é um passado generalizado, profundamente imbuído de meditações sobre transitoriedade dos poderes terrestres e a fragilidade das conquistas humanas" (History and its Images - A História e suas imagens—grifo nosso). Um número considerável dos habitantes atuais de Detroit, entretanto, estava vivo no tempo em que as "ruínas" que Vergara propõe preservar foram construídas. A sociedade que os pôs de pé continua a existir e reivindica certamente prosperar. Inevitavelmente, uma proposta para organizar um memorial à sua deterioração ofende as autoridades, e ela própria se torna uma questão social.

Ninguém pode acusar Vergara de adotar uma atitude indiferente frente à miséria atrelada à decadência de Detroit. Ele escreve eloqüentemente sobre as "vidas interrompidas, a falta de futuro, a destruição da cidade". E pergunta: "Por que somos cercados por tanta decadência e morte? Por quanto tempo isso vai durar?".

Por que então estaria ele tão relutante em desenvolver as dimensões sociais de seu projeto? O clima intelectual retrógrado deve ter seu papel nisso. Artistas e intelectuais nem sempre foram tão tímidos na defesa da revolta. Não seria possível, ainda, que o ceticismo reinante—que não vê nenhuma possibilidade de transformação radical da sociedade—leve o artista, desesperado na procura pela beleza, a encontrar elementos estéticos redentores no que existe, ou mesmo na decadência do que existe? Cada objeto e local são pitorescos se tivermos a intenção de entendê-los assim.

De qualquer forma, continuaremos a fazer a melhor interpretação possível do "parque arranha-céus arruinados" de Vergara—a de que este projeto não é um apelo aos corações e mentes da gangue que dirige Detroit à serviço do lucro, mas sim um desafio, uma provocação, uma bofetada na "opinião pública" e no senso-comum.

No final das contas, pode-se apenas agradecer ao fotógrafo pelas imagens fantásticas de esquilos, gambás e corvos deixando seus excrementos nas "catedrais e castelos do comércio, erguidos para o avanço e a glória do capitalismo industrial e seus campeões".

 



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