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Trabalhadores da Chrysler de Detroit falam sobre o impacto das demissões em massa

Essa é uma transformação enorme em nossas vidas e não temos controle sobre ela

Por Jerry White
23 Abril 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia14 de abril de 2007.

O declínio da indústria automobilística nos EUA está tendo um efeito devastador nas vidas de centenas de milhares de trabalhadores, particularmente naqueles dos estados do centro-oeste como Michigan, Ohio, Indiana e Missouri. Ao longo dos últimos 18 meses as três grandes fabricantes de automóveis — General Motors, Ford e Chrysler — juntamente com suas fornecedoras de peças, anunciaram o corte de mais de 1.500 empregos. Ao contrário do que ocorria no início da década de 1980 — quando os problemas da indústria eram seguidos de um período de recontratação — os analistas afirmam que hoje os cortes de emprego são conseqüência da permanente retração da indústria de automóveis americana e da diminuição do controle do mercado de ações das três grandes. Além disso, estima-se que para cada emprego eliminado pelas corporações em suas fornecedoras, outros nove empregos são perdidos nos comerciantes de carros e outros negócios dependentes.

Em fevereiro, a DaimlerChrysler revelou seus planos para acabar com 13.000 empregos nas plantas do Grupo Chrysler dos EUA e do Canadá. Os executivos alemães da companhia também deixaram clara a sua intenção de acabar com a fusão de nove anos com a Chrysler em decorrência das perdas que vem ocorrendo nas operações americanas. Isso desencadeou uma onda de ofertas feitas por empresas, pelo especulador bilionário Kirk Kerkorian e pela não sindicalizada gigante de auto-peças canadenses Magna. O resultado de tais ofertas pode ser a diminuição dos salários, da assistência médica e dos benefícios por demissão dos trabalhadores da Chrysler. Provavelmente, os novos proprietários liquidariam os ativos mais rentáveis da massa falida e desmantelariam a empresa, que tem 80 anos de existência.

A ameaça de retaliações da Chrysler é o último suspiro do estado de Michigan, que já está prejudicado por décadas de fechamentos de fábricas e demissões. Na década de 1950, quando os fabricantes de automóveis dos EUA tomaram parte de um monopólio mundial, produzindo quatro de cada cinco carros do mundo, os centros fabris do estado — Detroit, Flint, Lansing e Saginaw — chegaram aos mais altos índices de casas próprias e de renda per capita dos EUA. Hoje, o índice oficial de desemprego de Michigan — 6,6% — ganha somente do Mississipi, arrasado por um tornado. Michigan e os estados vizinhos, que antes havia os mais altos salários de trabalhadores industriais na América, assistem atualmente um número recorde de embargos de residências, falências e necessidade emergencial de alimento e assistência médica.

O êxodo dos trabalhadores e suas famílias do estado está sendo comparado com a migração em massa da era Dust Bowl, em 1930, quando dezenas de milhares de fazendeiros arruinados de Oklahoma e outros estados fizeram as malas e seguiram para a Califórnia. De acordo com o censo americano, se em 2005 o número de pessoas que deixaram Michigan foi de 29.700, em 2006 esse número subiu para 42.300. Esta é a maior migração do estado desde 1984, quando a proximidade da depressão da indústria automobilística forçou milhares de trabalhadores e jovens a deixar Michigan para buscar emprego nas companhias petrolíferas do Texas e outros estados do sudoeste; descrevendo as condições atuais da classe trabalhadora em Michigan, um comentarista do New York Times observou recentemente que “em algumas vizinhanças de Michigan que foram residências de trabalhadores, as casas estão sendo vendidas agora por preços mais baixos que alguns dos veículos das linhas de montagem de Detroit, Dearborn, Lansing e outros lugares do estado”.

Os trabalhadores da indústria automobilística e as suas famílias foram completamente abandonados pelo sindicato dos trabalhadores da indústria automobilística (UAW), que ao invés de se opor às demissões em massa, está colaborando com os patrões na retração “ordenada” da indústria. Depois de décadas de colaboração entre o sindicato e a administração à custa de seus associados, a burocracia do UAW não tem a mínima intenção de defender o emprego e o padrão de vida dos trabalhadores. Pelo contrário, recentemente o UAW impediu uma greve dos trabalhadores na planta da Carolina do Norte pertencente à divisão de caminhões da DaimlerChrysler, onde 1.200 dos 4.000 trabalhadores estão condenados a perder seus empregos. Em troca da cooperação do sindicato em desmantelar a Chrysler, os potenciais compradores da companhia estão considerando a hipótese de dar um “prêmio pela lealdade” à burocracia do UAW na provável nova companhia, incluindo a possibilidade da burocracia passar a controlar os seus fundos de pensão multibilionários.

Os associados do UAW foram forçados a fazer a escolha entre uma “oferta” de aceitar que sejam demitidos ou de insistir, esperando que sobrevivam à próxima rodada de demissões. O pacote oferecido para os associados do UAW em dia com suas contribuições e com no mínimo um ano de trabalho inclui uma soma total de 100.000 dólares e cobertura médica limitada por seis meses. Não confiando no UAW, mais de 4.300 trabalhadores da Chrysler já escolheram se aposentar prematuramente ou receber os pacotes, deixando seus empregos.

“Nós tivemos somente algumas semanas para tomar uma decisão que mudará as nossas vidas”, disse Robert, que trabalhou por mais de 15 anos numa fábrica da Chrysler em Detroit. “Se eu não pegar o pacote e aceitar ser demitido, depois serei posto no banco de empregos, onde continuarei a receber um pagamento. Mas depois do próximo contrato de trabalho, que será assinado em setembro, o banco de trabalho não existirá mais e seremos postos na rua sem nada”.

“Se tivermos que nos mudar para procurar emprego em outro lugar, não poderemos vender nossas casas porque o preço delas desabou e os embargos aumentaram vertiginosamente. Teremos que tirar as crianças da escola, com todos os traumas que isso pode causar, e mudar para um outro estado. Mesmo se eu conseguir vender a minha casa, terei um grande prejuízo. Muitos trabalhadores ficaram perplexos, dizendo que isso não pode acontecer conosco, mas é isso. Eu estive correndo por aí procurando assistência odontológica para os meus filhos, porque daqui a algumas semanas eu provavelmente não terei mais a cobertura”.

“Essa é uma transformação enorme em nossas vidas e não temos controle sobre ela. As pessoas que estão no poder estão ganhando muito dinheiro. Quanto eles precisam — 40 milhões, 50 milhões de dólares? Veja as vidas que eles destruíram. Esses pacotes são uma coisa realmente terrível para a classe trabalhadora”.

O massacre do dia dos namorados

Robert descreveu o sentimento dos trabalhadores no chão de fábrica quando esperavam o anúncio das demissões programado para o dia dos namorados, no dia 14 de fevereiro: “seis semanas antes de haver o anúncio, nós sabíamos que haveria más notícias, nós só não imaginávamos o quão ruim eram essas notícias. Nós ouvíamos rumores constantes. Há dois anos havia conversas a respeito da possível venda da companhia, mas os altos executivos negavam isso. Eles admitiam que estavam procurando por compradores da companhia. A divisão alemã quer se desligar da americana, e eles farão o que o puderem para consegui-lo. Nós estamos tentando passar por isso, mas estamos assistindo à desintegração da fábrica diante de nossos olhos. A companhia começou pintando as máquinas de branco, ao invés do característico azul da Chrysler, e nós percebíamos que o local estava sendo preparado para ser vendido”.

“Aumentar os lucros no menor espaço de tempo é a única coisa com a qual eles estão preocupados. Nós tínhamos equipamentos multimilionários que quebraram. Três ou quatro anos atrás eles teriam enviado alguém da Alemanha para consertá-los imediatamente. Agora levou 10 dias somente para mandarem alguém ver o que estava acontecendo. Eles não investirão mais e demitirão a maioria dos técnicos das máquinas. Isso é um grande sinal que eles simplesmente deixarão a fábrica morrer. Minha crença pessoal é que eles venderão o nosso prédio a uma empresa estrangeira que se comprometa em administrá-lo. Não será mais a Chrysler”.

“Quando Tom LaSorda tomou o controle da divisão da Chrysler como presidente, uma das primeiras coisas que ele disse foi que sua responsabilidade era com os acionistas, não com os empregados. É para os caras que investem na companhia, que é propriedade da elite, e não para caras como eu, que possuem 100 ações na 401K. Depois do anúncio do corte de empregos, as ações subiram para 5,40 dólares. Se eu as vendesse eu teria apenas 540 dólares? Os grandes ganham milhões e eles sabiam antes o que iria acontecer. Eles ganham mais em um dia de transação do que um trabalhador da Chrysler ganha em toda a sua carreira. Nós só estamos tentando encontrar uma saída e colocar comida na mesa para as nossas crianças. Todos os dias nós só pensamos nisso. Essas pessoas estão controlando as nossa vidas”.

“Esse é um jeito muito ruim de fazer as coisas. Você pensava que existissem leis e direitos corporativos. Eles deveriam ter responsabilidade social quando fazem negócios. Mas obviamente essas coisas nunca acontecerão. Os democratas são exatamente como os republicanos. Eles não se importam. O que acontece quando você perde a sua casa? O que eles farão? Granholm (o governador de Michigan) e os democratas dizem que eles defendem a classe trabalhadora e os programas sociais, mas na verdade eles estão cortando os programas para a população, enquanto eles estão gastando bilhões de dólares na guerra do Iraque. Os democratas falam para as corporações, não para a classe trabalhadora”.

Globalização

Robert se referiu à tentativa de Granholm e de outros políticos democratas, assim como do UAW, de responsabilizar a “injusta competição internacional” pela perda de empregos, particularmente pelos fabricantes de automóveis asiáticos. “A Toyota não é responsável pela perda dos nossos empregos”, disse ele. “A responsabilidade é das pessoas que estão no topo da Chrysler, que querem sempre mais. Eu chamo isso de lei do capitalismo. Eles precisam continuar expandindo e fazendo mais dinheiro. E eles não podem conseguir isso por meio dos consumidores, que não pagarão mais por um carro. As pessoas comprarão os carros mais baratos, porque também têm que brigar pelos seus interesses. O que você fará se puder comprar um Toyota mais barato que um Chrysler, que consome muito combustível?”

“Eu não sou contra a globalização. O slogan nacionalista “compre produtos americanos” não resolve o problema. Essas são corporações multinacionais que abusam das pessoas em todo o mundo, não somente aqui em Detroit. Nós precisamos da globalização, mas deve haver um meio mais justo para isso de forma a ajudar a todos e não somente umas poucas pessoas no topo que estão tirando vantagens do trabalho de todos ao redor do mundo. Eles estão sempre procurando por mão de obra mais barata”.

“O UAW na Chrysler diz ‘Compre Chrysler’. Bem, a Chrysler não é mais uma empresa americana — é uma empresa alemã. A companhia teve um lucro total de 1,7 bilhões de dólares no ano passado. Nós somente começamos a ‘perder’ dinheiro no minuto em que decidimos nos recusar a aceitar as mesmas concessões em relação à assistência médica que os trabalhadores da GM e da Ford aceitaram. A DaimlerChrysler cortou empregos na Alemanha também. Os trabalhadores de todo o mundo estão travando a mesma luta. Os trabalhadores da Ford na planta de Fiesta, na Rússia, acabaram de fazer uma greve, e a companhia resolveu isso lhes dando um trocado extra”.

Os trabalhadores da Chrysler foram golpeados com uma “reestruturação” após a outra, depois da fusão entre a Chrysler e a Daimler Benz , incluindo a de 2001, quando a companhia eliminou 26.000 empregos ou um quinto de seus trabalhadores da produção e da administração. O UAW, que juntamente com o IG Metall alemão, compõe o quadro de supervisão da DaimlerChrysler, pressionou seus associados a aceitarem a aceleração da produção e outras medidas de cortes de custos, que supostamente salvariam seus empregos. O resultado foi a piora das condições para os trabalhadores por um lado, e grandes pagamentos aos executivos alemães e americanos, por outro. Embora a companhia tenha perdido 1,5 bilhão de dólares no ano passado, o presidente da Chrysler, Tom LaSorda, embolsou 3 milhões de dólares em compensações, 1,1 milhão na forma de bônus anual e mais 2 milhões em ações.

Robert comentou: “eles não podem aumentar ainda mais os lucros reduzindo os materiais da fábrica. Agora eles começarão a nos atacar por meio da assistência médica. Os acionistas não estão ganhando dinheiro suficiente. Eles precisam manter o crescimento. O único lugar de onde podem tirá-lo é do bolso dos trabalhadores. Eles já fizeram tudo o que podiam para cortar os custos do aço. Eles cortaram tanto os custos com metal que agora o aço passa por todo o processo e quando o comprador olhar para o carro na loja o painel estará se rompendo de tão fraco que é o metal. Isso é inaceitável. Não se pode produzir carros como esses. Mas eles diminuíram tanto a quantidade de metal por uma única razão: economizar dinheiro”.

Traídos pelo UAW

“O sindicato possibilitou a destruição dos empregos”, disse Robert. “Ele costumava ser um instrumento para melhorar contratos, agora é para acertar concessões. As companhias automobilísticas já realizaram esses cortes — eles alegam que são cortes financeiros. Quantas concessões nós devemos dar? Nós demos uma concessão em 2001 que custou dezenas de milhares de empregos. Eu vi pessoas perdendo seus empregos. Eles iam para cima delas com um segurança para escoltá-las para fora do prédio. Eu estou falando de pessoas que deram 15 ou 20 anos de suas vidas para o sucesso da companhia. E a companhia não lhes deu nenhuma segurança. Isso não é uma ‘equipe’. A única equipe é a dos grandes, os tão falados ‘treinadores’, juntamente com o sindicato. Eles sempre usam esse papo de ‘equipe’. Se qualquer supervisor fala uma palavra com os trabalhadores é sempre para falar ‘à equipe’. Que equipe?”

“Os trabalhadores mais velhos manterão aquilo que tem. Quem se importa se for imposto um sistema duplo de salários? O sindicato fala dessa coisa de ‘cada um por si’. Não existe uma forma de resistir por meio do sindicato. Os dirigentes sindicais não querem que seu estilo de vida seja prejudicado. Nós nunca vemos o Ron Gettlefinger, o presidente do UAW. Ele não vem para o chão de fábrica. Essas são pessoas que têm a nossa segurança em suas mãos. Mas a única coisa que fazem é seguir com o programa. Gettlefinger é parte do quadro de diretores na Alemanha como um ‘representante dos trabalhadores’. Ele sabe o que a companhia está fazendo. Já não existe qualquer resistência. Se qualquer questão séria é levantada num encontro do sindicato, o presidente local acabará com a reunião”.

“O UAW está seguindo adiante com o programa. Os líderes do UAW têm muito medo que os trabalhadores entrem em greve porque eles não terão seus pagamentos. E os líderes e os representantes das fábricas recebem grandes pagamentos. Os nossos representantes recebem o equivalente a 10 ou 12 horas de trabalho — eles não podem se preocupar com os trabalhadores”.

O UAW está colaborando com os esforços dos patrões em acabar com uma geração inteira de trabalhadores mais antigos, que recebem salários relativamente mais altos, e por meio de uma medida de seguro-trabalho e proteções por demissão, trocá-los por uma quantidade muito menor de trabalhadores, que receberão salários mais baixos, muitos deles contratados temporariamente.

Comentando o que esperar do futuro para os trabalhadores, Robert disse: “eles vão se livrar de todos os trabalhadores que recebem 27 dólares por hora. Eles não querem mais ter uma classificação de emprego de 10-a-12. Eles querem duas ou três classificações com baixos salários. Eles querem um trabalhador médio que possa fazer com que a linha de montagem volte a funcionar caso ela pare. Mas para isso é necessário um trabalhador habilitado. Isso é o que eles estão forçando com o Acordo de Operações Modernas e o que eles chamam de nosso “Treinamento Inteligente”, ou seja, uma equipe que trabalha conjuntamente. Eles se livrarão de todos nós e trarão trabalhadores temporários e mal pagos. A Delphi quer contratar pessoas por um ou dois anos de cada vez. Isso faz com que a companhia não precise pagar os benefícios. Ter trinta anos numa empresa se tornará uma coisa do passado”.

“Eles estão fechando plantas em todo o mundo. Eu vi um desenho animado mostrando dois homens de negócios trabalhando juntos. Um olha para o outro e diz: ‘o que você acabou de dizer àquele trabalhador?’ O outro responde: ‘eu lhe disse para parar de falar e trabalhar mais rápido’. ‘Quanto você está pagando a ele?’, pergunta o outro homem. ‘Eu estou pagando 5 dólares por dia’, diz ele. ‘E quanto você está ganhando pelo que ele produz?’, pergunta o outro homem. ‘Estou ganhando 25 dólares por dia’. O outro homem diz: ‘então, em outras palavras, ele está te pagando 20 dólares por dia para você mandar ele trabalhar mais rápido’. Essa é a realidade do sistema capitalista”.

“Cinqüenta por cento das crianças que estavam nas escolas serão obrigadas a trabalhar nos restaurantes como garçons altamente educados, que lutarão todo o mês para pagar suas contas. Eles não têm a menor idéia do que acontecerá depois que eles se formarem, porque ninguém lhes fala a verdade. Quanto tempo mais levará para as pessoas perceberem que uma transformação é necessária? Veja o que está acontecendo hoje. Inúmeras pessoas não conseguem pôr comida em suas mesas. A maioria está vivendo no limite. As pessoas lêem sobre a guerra e eles sabem que os políticos, incluindo os democratas, não estão falando a verdade”.

 



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