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Assassinato de professor pela polícia provoca greve nacional na Argentina

Por Jadir Antunes
20 Abril 2007

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Professores na Argentina realizaram uma greve por todo o país no dia 9 de abril, para protestar contra o assassinato de um de seus colegas, o professor Carlos Fuentealba, pela polícia, durante um protesto na província de Neuquén, localizada no sudoeste do país, a 600 milhas da capital, Buenos Aires.

A greve recebeu o apoio de uma manifestação de 50.000 pessoas, que marcharam do obelisco, no centro de Buenos Aires, à casa do governo em Neuquén. Os manifestantes carregavam placas relembrando Fuentealba e com o slogan “Nunca mais”, referindo-se à bárbara repressão utilizada contra a classe trabalhadora argentina na época em que o país era controlado por uma ditadura militar, de 1976 a 1983.

Em Neuquén, uma manifestação reuniu mais de 30.000 pessoas. Outros protestos foram realizados em todo o país.

Carlos Fuentealba foi morto no dia 4 de abril durante um protesto de professores na cidade de Neuquén, a capital da província, no qual eles procuravam bloquear uma estrada para pressionar o governo a atender sua reivindicação de reajuste salarial. Policiais do município atacaram os manifestantes. A morte de Fuentealba foi causada por uma bomba de gás lacrimogêneo lançada intencionalmente contra sua cabeça, fraturando seu crânio e causando uma grande perda de sangue. Ele morreu horas depois do ataque, no hospital local.

O projétil foi disparado pelo sargento da polícia, Dario Poblete, a uma distância de aproximadamente dois metros. Fuentealba ainda estava em seu carro com outros professores, se preparando para participar do protesto.

Poblete já havia sido condenado a dois anos de prisão por corrupção. Apesar disso, ele foi mantido na força policial, depois que a sua sentença foi arquivada por um tribunal superior.

O assassinato do professor ocorreu em meio a crescentes tensões sociais na Argentina, onde o acobertamento da crise econômica de 2001-2003 foi acompanhado de níveis recordes de desigualdades sociais, crescente falta de emprego e inflação.

O assassinato não é resultado apenas de medidas violentas e repressivas utilizadas pela polícia argentina no enfrentamento de problemas de caráter social, mas do sistema político como um todo. Antes mesmo do corpo do professor assassinado esfriar, o incidente causou uma série de agressões e ataques entre os principais candidatos à presidência e aos governos provinciais, que serão realizadas em junho.

O governador de Neuquén, Jorge Sobisch, que anunciou a sua candidatura à presidência pelo conservador Movimento das Províncias Unidas, acusou Daniel Firmus, ministro da educação de Kirchner, de ter a responsabilidade política pela morte do professor. O argumento de Sobisch era o de que, ao anunciar que o salário base dos professores seria reajustado de 840 para 1.040 pesos, sem consultar previamente os governos das províncias, o governo federal criou as condições propícias ao confronto.

Na Argentina, o salário dos professores é pago pelas províncias, mas Filmus, que é ministro da educação e candidato à prefeitura de Buenos Aires, aprovou uma lei obrigando as províncias a reajustarem os salários dos professores. Sobisch, oponente político de Kirchner, se negou a conceder o reajuste salarial, o que acabou levando os professores a se manifestarem nas ruas.

De sua parte, Kirchner se referiu claramente a Sobisch, numa declaração feita na segunda-feira, na qual ele diz: “algumas pessoas desejam recriar a Doutrina da Segurança (imposta pela ditadura militar para justificar a repressão das massas) e acreditam que para ser um bom homem de Estado, é necessário que se tenha um porrete nas mãos”.

Sobish acusou Kirchner de “covardia” e reconheceu abertamente que deu ordens para reprimir os professores. “Eu tomaria a mesma decisão de novo para assegurar a constituição e a lei”, disse ele. “Se aqueles que são intolerantes e querem a anarquia vierem dar ordens na Argentina, então nós não teremos um futuro muito bom”.

O covarde Estado que assassinou Carlos Fuentealba expôs não somente o cinismo da burguesia argentina, mas também o oportunismo dos sindicatos burocratizados do país. Os dirigentes sindicais tiveram vantagens na crise, que possibilitou o crescimento de sua influência política sobre o governo Kirchner — já desgastado com o episódio ocorrido no ano passado, a batalha travada entre as federações rivais CGT e CTA durante a cerimônia de re-enterro de Perón, ocorrida em Santa Fé. Em resposta ao assassinato, os burocratas do sindicato organizaram pequenos protestos simbólicos — greves de duas horas no horário do almoço dos trabalhadores dos transportes e alguns outros setores.

O assassinato também demonstrou de maneira aguda a forma pela qual a classe dominante argentina trata as questões políticas nos últimos anos. Durante a ditadura militar, que deixou o poder há 24 anos, os setores dominantes na Argentina garantiram estabilidade por meio de um terror aberto e violência de Estado, sobretudo contra os trabalhadores, mas também contra todas as formas de oposição política. Com o fim do regime militar, a oposição peronista (baseada numa mistura de nacionalismo burguês e sindicalismo corrupto) chegou finalmente ao poder por meio de eleições populares.

Em meados de 2003, depois da rebelião popular e da violenta crise econômica que levou à derrubada do governo do presidente Fernando de la Rua e do ministro da economia Domingo Cavallo, o peronismo de “esquerda” chegou ao poder com a eleição de Kirchner para presidente.

Uma vez no poder, Kirchner procurou governar atendendo aos interesses do capital estrangeiro e argentino, enquanto tentava cooptar setores dos movimentos sociais e explorar a habilidade da burocracia peronista em conter as explosivas lutas da classe trabalhadora argentina.

Durante a sua visita a New York em setembro último — onde foi convidado a falar na bolsa de Wall Street — Kirchner defendeu o que ele chamou de sua “política econômica heterodoxa, com os cânones da economia clássica”.

O assassinato pela polícia de Carlos Fuentealba, um professor escolar mal pago que lutava por melhores condições de vida, e o crescimento da militância da classe trabalhadora na Argentina como um todo, estão demonstrando cada vez mais o fracasso da tentativa de Kirchner em ser a ponte entre as classes que dividem a Argentina.

 



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