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Um símbolo do declínio da produtividade americana

Ford pretende cortar 44 mil empregos

Por Kate Randall
26 Setembro 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 16 de setembro de 2006

A Companhia Automobilística Ford anunciou na sexta-feira um plano de reduzir drasticamente sua produção nos Estados Unidos, demitindo cerca de um terço dos trabalhadores assalariados e oferecendo ações aos outros que recebem por hora de trabalho. Esta medida—a aceleração e intensificação do plano “Caminho Adiante” da companhia, anunciado em janeiro—visa uma redução anual de cinco bilhões de dólares nos custos operacionais da empresa.

A Ford vai eliminar 14 mil empregos de colarinho branco, ao invés dos quatro mil propostos no plano original. A isto se somam os quatro mil empregos já eliminados em 2005. Ações e opções de aposentadoria precoce serão oferecidas a todos os 75 mil trabalhadores que recebem por hora. Na lista anunciada em janeiro, sete fábricas seriam fechadas nos E.U.A.. Agora duas fábricas foram adicionadas à lista—a Fábrica de Estampagem de Maumee (Ohio) e a Fábrica de Motores Essex (periferia de Windsor, Ontário).

A companhia fechará ou venderá todas as 17 fábricas nos EUA e no México compradas pela Ford em outubro de 2005 da fabricante de peças Visteon, que haviam sido reorganizadas como uma Holding de Componentes Automotivos (HCA). A Ford fez esta transação no ano passado numa tentativa de salvar a Visteon da falência. Esta empresa havia sido desmembrada pela Ford em 2000.

A expansão do programa de reduções foi noticiada dez dias após o anúncio da substituição de Bill Ford (bisneto do fundador da empresa, que vinha dirigindo a empresa há cinco anos) do cargo de chefe-executivo, pelo ex-executivo da Boeing, Allan Mulally.

A Ford pretende demitir em torno de 44 mil trabalhadores assalariados e horistas na América do Norte—o que representa mais de um terço da sua capacidade produtiva. Os cortes irão devastar comunidades em todo o país, com perdas de emprego e redução do nível de renda, quebrando economias locais e arruinando bairros operários. O golpe será particularmente duro em Michigan, onde está localizada a sede da Ford e onde estão muitas de suas fábricas. Entre todos os estados do país, Michigan é o que possui a maior taxa de desemprego—7,1%.

A Ford pretende implementar os cortes previstos no plano “Caminho Adiante” até o fim de 2008, ao invés de 2012, como era previsto inicialmente. O Detroit News noticiou na quinta-feira que as mudanças levadas a cabo pela Ford acarretarão uma perda de 5,6 a 5,9 bilhões de dólares neste ano. Se somados os custos de reestruturação, a perda pode chegar até 9 bilhões de dólares. A previsão é de que a empresa não obtenha lucro na América do Norte antes de 2009.

O plano de reestruturação expressa o fim da posição da Ford, mantida por quase um século, como uma das duas gigantes empresas automobilísticas do mundo. A participação da Ford no mercado dos EUA diminuiu de mais de 20% em 2002 para 17% no mês passado. Numa entrevista concedida à imprensa na sexta-feira pela manhã, televisionada pelos três canais locais, representantes da companhia reconheceram que seu objetivo, seguindo à implementação do programa de enxugamento, era o de manter os modestos 14 ou 15% do mercado. Recentemente, no fim da década de 90, a Ford controlava aproximadamente um quarto do mercado da América do Norte.

A companhia tem sido atingida pelo declínio na venda de modelos esportivos e picape, que geravam altas margens de lucro e ajudaram a Ford a contrabalancear o prolongado declínio de sua competitividade. A confiança míope da direção da empresa em tais veículos, cuja característica é o elevado consumo de combustível, foi a responsável por enfraquecer sua posição, quando caiu a venda de picapes e SUVs em conseqüência dos crescentes preços da gasolina.

As vendas totais da Ford ao longo do mês de agosto deste ano caíram 10% em relação ao mesmo período de 2005, comparadas com um aumento de 11% obtido pela Toyota, que em breve assumirá o segundo lugar entre as empresas automobilísticas dos EUA, atrás da General Motors.

A reação de Wall Street sobre o novo plano de reduções da Ford foi decididamente negativa. O consenso entre os grandes bancos e entidades de investimento que dominam o mercado de ações foi o de que as medidas tomadas pela empresa foram insuficientes. Considera-se que a Ford deveria liquidar imediatamente os estoques de seus produtos de primeira linha, as marcas Jaguar e Land Rover, e fechar um maior número de fábricas.

John Murphy, analista da Merrill Lynch, escreveu numa nota aos clientes: “o plano não é direcionado à Jaguar ou às vendas de bens. Ele não acelera concretamente a introdução de produtos... ele não corta profundamente a capacidade. Está perdendo muito”. A Merrill Lynch reduziu a avaliação da Ford de “neutra” para “venda”.

Na sexta-feira as ações da Ford sofreram uma drástica queda de 13%, a maior queda num único dia desde o reinício das cotações após os ataques terroristas de 11 de setembro.

Os trabalhadores devem entender a frieza da resposta de Wall Street à sangria da Ford como um sinal da iminente escalada de ataques sem precedentes aos empregos e ao nível de vida, já que o capitalismo norte-americano procura colocar o peso de sua crise sobre as costas da classe trabalhadora. Estes ataques prejudicarão amplos setores da classe trabalhadora, como demonstrou a decisão da Ford em realizar um corte adicional 10 mil empregos de colarinho branco, número superior àquele anunciado em janeiro. Estas demissões ocorrerão em exatos seis meses.

Até o fim de 2008 a Ford pretende demitir entre 20 e 30 mil trabalhadores que recebem por hora. Num acordo fechado com a burocracia da União de Trabalhadores Automobilísticos (UTA), serão oferecidas a todos os trabalhadores horistas da Ford da América do Norte ações avaliadas entre 65 e 140 mil dólares. Os trabalhadores só saberão os detalhes a respeito das ações em meados de outubro. Aqueles que aceitarem a proposta deverão abandonar seus empregos até setembro de 2007.

A Ford cortará sua capacidade produtiva da América do Norte para 3,6 milhões de unidades até o fim de 2008, 26% inferior à de 2005. Além das duas fábricas cujo fechamento foi anunciado na sexta-feira, as outras sete previamente visadas eram: Atlanta Assembly (Georgia), Batavia transmission (Ohio), Norfolk Assembly (Virginia), St. Louis Assembly (Missoury), Twin Cities (Minnessota), Windsor Casting (Ontario) e Wixom Assembly (Michigan).

De acordo com o comunicado da empresa à imprensa na sexta-feira, até o fim de 2012, a Ford planeja fechar 16 unidades produtivas da América do Norte.

O novo chefe-executivo Alan Mulally, 61 anos, foi trazido à Ford com o objetivo de evitar uma catastrófica espiral descendente e de acelerar o fechamento das fábricas, demissões e outras medidas que visem a redução dos custos. Mulally tem 36 anos de experiência na indústria aeroespacial. Ele é o responsável pela reviravolta no setor comercial de aviões da Boeing. Segundo boatos, Mulally receberá, pelos seus serviços prestados à Ford, o pagamento de uma bolada total equivalente a 20,5 milhões de dólares no primeiro ano.

Ao contrário dos comentários de Mulally numa estação local de rádio em Detroit, onde que ele diz não ser “absolutamente o Sr. Ax Man,” seu passado prova outra coisa. Depois do ataque de 11 de setembro, a Boeing teve que enfrentar os efeitos do enxugamento das linhas aéreas dos EUA e a dura competição com a Airbus. Mulally cortou 30 mil empregos e reduziu o número de modelos de aviões comerciais de 14 para 4.

Tom Buffenbarger, presidente da Associação Internacional de Mecânicos, negociou dois contratos com Mulally, na Boeing. Ele disse que, com a presença de Mulally no cargo, “a companhia se dirigia aos trabalhadores com uma machadinha de açougueiro”. Apesar de tudo, Buffenbarger disse que ele e o chefe-executivo anterior “sempre tiveram a habilidade de se comunicar”.

Na Ford, a União dos Trabalhadores Automobilísticos tem sido um instrumento de ajuda aos ataques aos trabalhadores em nome da redução de custos. Além de concordar, no ano passado, com ataques sem precedentes aos benefícios de saúde e pensões, a burocracia da União negociou acordos locais, abrindo concessões que eliminam o que quer que tenha sobrado das leis trabalhistas, planos de carreira, auxílios de segurança e saúde e proteções contra o aumento da intensidade e da jornada de trabalho.

Ao aceitar concessões cada vez mais onerosas para os trabalhadores a fim de “salvar” a fábrica, a UTA tem colaborado com a companhia em várias unidades, quando joga uns trabalhadores contra os outros, numa guerra de poder. Neste domingo, trabalhadores na Fábrica de Estampagem Buffalo em Nova Iorque, aprovaram mudanças nas relações de trabalho, dando à Ford maior flexibilidade.

De acordo com o comunicado da Ford à imprensa, “novos acordos operacionais competitivos foram ratificados pelos representantes locais da UTA em 30 diferentes unidades da Ford dos EUA e da Holding (HCA)—o que representa uma economia de aproximadamente 600 milhões de dólares anuais”.

Típicos foram os comentários de Jerry Sullivan, presidente da UTA Local 600, que representa os trabalhadores da fábrica Dearborn Truck, do complexo Rouge da Ford, no sul de Detroit: “nós estamos tentando ao máximo conseguir preços competitivos para que assim possamos assegurar nossos empregos e nosso futuro,” disse Sullivan. “Não temos a intenção de acomodarmo-nos e simplesmente perder o emprego”.

Durante dois dias os burocratas do alto escalão da UTA se reuniram à portas fechadas para discutir o projeto de reestruturação e ajustar os detalhes das ações que estão sendo oferecidas aos trabalhadores que recebem por hora. Mediante as ofertas, a Ford não pretende apenas demitir os trabalhadores representados pela UTA, mas criar as condições para substituí-los por jovens trabalhadores, que recebam salários mais baixos, sem os chamados “custos herdados”: assistência médica, pensões e outros benefícios já adquiridos pelos trabalhadores antigos.

Aos trabalhadores será oferecida aposentadoria precoce, uma licença de afastamento anterior à aposentadoria, além de outros incentivos. O programa da Ford é similar àquele oferecido pela General Motors no começo deste ano a 113 mil trabalhadores que recebem por hora. Cerca de 35 mil aceitaram o acordo.

Se considerarmos a Ford e a GM, cerca de 200 mil trabalhadores do setor automobilístico receberam propostas de incentivos para abandonar seus empregos neste ano. Esta é uma das indicações do sangramento dos empregos automobilísticos nos EUA nas décadas recentes dentre as “Três Grandes”, incluindo a Chrysler que, desde 1979, demitiu nada menos que 600 mil trabalhadores.

A crise atual na Ford possui imensa importância histórica. Durante os seus 102 anos de história, a Ford foi um símbolo do poderio industrial do capitalismo norte-americano. O “fordismo”, nas primeiras décadas do século passado, se tornou uma palavra-símbolo de inovações revolucionárias e avanços produtivos, mais notavelmente a linha de montagem.

A queda da Ford da segunda colocação no ranking das maiores dos EUA é uma expressão do aprofundamento da crise e da decadência do capitalismo norte-americano, que encontra nítida expressão na indústria automobilística, mas que pode ser encontrada em vários setores da economia—nas linhas aéreas, na indústria de aço, de mineração e em toda a indústria de base. Nos EUA, o interesse corporativo e a incompetência desempenham um papel particularmente traiçoeiro diante do imenso declínio industrial.

Em todos os aspectos da vida econômica, o emprego e o nível de vida dos trabalhadores são reféns da dominação da oligarquia financeira e corporativa.

 



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