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O que está por trás da discórdia entre os presidentes do Afeganistão e do Paquistão

Por Peter Symonds
4 Octubre 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 30 de setembro de 2006.

A tentativa do presidente dos EUA, George Bush, de reconciliar dois aliados norte-americanos—os presidentes afegão e paquistanês, Hamid Karzai e o General Pervez Musharraf—parece ter fracassado.

Antes do jantar na Casa Branca, era visível o constrangimento expresso pelos dois líderes ao posarem lado de Bush. Recusaram-se até mesmo ao cumprimento formal. Enquanto isso, Bush tentava fazer do episódio “uma chance para estabelecermos estratégias conjuntas”. Mas Bush não foi capaz, por meio do encontro, de articular nenhuma nova estratégia.

O porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, disse à mídia que os dois líderes concordaram em colaborar em relação ao “serviço de inteligência visando uma ação coordenada contra os terroristas”. Todavia, seus comentários demonstraram que a discórdia entre os dois, tornada pública na semana passada, ainda persiste.

De maneira geral, a mídia norte-americana internacional subestimou o caso, rotulando-o de “uma bofetada” entre dois “aliados em disputa”. Mas o episódio representa o prelúdio do provável desastre da política norte-americana no Afeganistão, onde as tropas dos EUA e da OTAN estão enfrentando uma crescente resistência por parte de forças contrárias à ocupação, o que é uma conseqüência inevitável da profunda desestabilização gerada pela invasão liderada pelos EUA na região.

Karzai iniciou sua dura declaração afirmando que o Paquistão deve fechar em todo o país os instrumentos de disseminação dos “princípios do ódio”—as escolas islâmicas. Mostrou-se cético em relação ao pacto assinado no mês passado entre o governo paquistanês e líderes de tribos locais, em Waziristan do Norte. Sob pressão de Washington, o exército paquistanês enviou 70.000 homens à zona tribal autônoma de Pashtun, próxima à fronteira com o Afeganistão, para que fossem reprimidos simpatizantes locais das milícias anti-ocupação que lutam no Afeganistão.

Enquanto Musharraf considerou que o pacto de não-agressão foi uma vitória, na verdade ele significa um humilhante retrocesso diante de meses de lutas sangrentas nos quais centenas de soldados paquistaneses perderam suas vidas. O exército retirou suas tropas de Waziristan do Norte e o governo ofereceu uma recompensa, em troca de uma frágil garantia de que as forças tribais impediriam a travessia da fronteira por grupos anti-americanos. A presença militar serviu apenas para gerar uma forte resistência nas regiões próximas à fronteira, e provocou uma oposição nas camadas do exército, que inclui um significativo número de membros Pashtuns.

A declaração de Karzai sobre o pacto de Waziristan do Norte foi apoiada por generais, oficiais e diplomatas norte-americanos, que culpam o Paquistão pelo crescimento de grupos anti-ocupação no Afeganistão, e exigem que Musharraf aja de maneira mais decisiva no sentido de prevenir a infiltração de grupos islâmicos no Afeganistão. Há nessas acusações uma grande dose de hipocrisia, uma vez que, na década de 80, a CIA armou e treinou grupos islâmicos instalados no Paquistão, que cruzavam a fronteira com extrema facilidade a fim de lutar contra o governo de Kabul, que era aliado da União Soviética.

Com toda a certeza, guerrilhas contra a ocupação estão usando o Paquistão como um refúgio. Porém, a razão para a multiplicação de ataques contra a ocupação liderada pelos EUA é a larga hostilidade que a população afegã tem contra os métodos repressivos utilizados pelo exército norte-americano e a evidente incompetência do governo Karzai em acabar com a crise econômica e social do país. A conseqüência disso é o aumento do número de afegãos que se dispõe a ingressar em grupos de resistência à ocupação.

Musharraf respondeu a Karzai publicamente, declarando que o Afeganistão é um estado falido. Ele nega que a Al Qaeda e o Taliban operem do Paquistão. “Nada disso é verdade e Karzai sabe disso”, afirmou ele à CNN. “Ele sabe que o tráfico de drogas está financiando o Taliban. Ele sabe que isso não é um problema gerado pelo Paquistão. Mas ele está ficando cego. Ele parece uma avestruz com sua cabeça enterrada no solo”. Seu aberto desprezo por Karzai foi uma tentativa de se diferenciar de alguém que é visto na região como uma marionete dos EUA.

O comentário de Musharraf revela a difícil posição política na qual a invasão norte-americana do Afeganistão o colocou. Amplas camadas da população o vêem como um palhaço que dá suporte à “guerra ao terror” norte-americana. Apesar de seu apoio ao regime Taliban, que tem um crescente número de militantes, Musharraf enfrenta uma enorme pressão norte-americana. Mesmo assim, seu regime conta com o apoio de uma aliança de partidos islâmicos.

O apoio público de Bush ao acordo de Musharraf com o Waziristan do Norte é significativo. O apoio foi dado apesar da evidente oposição do Pentágono e de aliados da OTAN. Na quarta-feira, o dia do jantar na Casa Branca, um oficial militar norte-americano afirmou à imprensa que os ataques aos norte-americanos e às tropas aliadas no Afeganistão triplicariam caso a trégua for assinada. Na quinta-feira, foi divulgada uma nota da Britain’s Defense Academy, afirmando que a inteligência militar paquistanesa—Inter-Services Intelligence (ISI)—estava dando apoio indireto ao Taliban.

No entanto, Bush deu boas vindas a Musharraf na Casa Branca como um “bom amigo” e tentou apaziguar sua discórdia com o presidente do Afeganistão. A aproximação cuidadosa revela preocupações reais em Washington sobre a estabilidade do regime paquistanês e o receio da crescente influência dos partidos islâmicos no Paquistão. O apoio norte-americano a Musharraf, todavia, depende dele continuar aceitando as ordens de Washington. Isso significa não fortalecer sua própria base interna de apoio—uma situação que, a longo prazo, é insustentável.

O fracasso da tentativa de Bush, ao promover o jantar na Casa Branca, de resolver o conflito entre Karzai e Musharraf, evidencia o caráter negligente das aventuras militares do governo Bush no Afeganistão. O ataque de 11 de setembro promoveu um conveniente pretexto para realizar os objetivos de Washington, que é garantir sua dominação econômica e estratégica no Oriente Médio e na Ásia Central. O Afeganistão, localizado entre duas regiões ricas em recursos naturais, foi um conveniente primeiro passo.

Tal estratégia se encontra em pedaços. O governo Bush enfrenta uma resistência armada que vem se expandindo no Afeganistão. Ao mesmo tempo, a invasão enfraqueceu seriamente a Musharraf, um aliado-chave dos EUA, e aponta para o fracasso dos esforços de Washington em superar a antiga rivalidade existente entre o Paquistão e a Índia. O conflito entre os dois rivais do sul da Ásia interrompe os planos do governo Bush para estabelecer relações econômicas mais próximas com a Índia e transformá-la num aliado potencial contra a China.

Há muito tempo, o Afeganistão tem sido uma arena para o duelo entre o Paquistão e a Índia. Para atacar o regime Taliban apoiado pelo Paquistão, a Índia apoiou os militares da chamada Aliança do Norte, ao qual pertence atualmente o governo de Karzai, em Kabul. De forma nada surpreendente, a Índia aproveitou a oportunidade para reforçar a sua posição no Afeganistão, por meio de significativa ajuda econômica. Em abril, Karzai fez sua quarta viagem à Nova Delhi com uma enorme delegação de 110 pessoas, entre ministros, parlamentares e empresários. O aprofundamento das relações com a Índia, que prometeu mais US$50 milhões, além do valor já acordado de US$650 milhões, está em marcante contradição com a tentativa de acordo entre o Afeganistão e o Paquistão.

O regime paquistanês é altamente sensível ao envolvimento da Índia com o Afeganistão, que pode ser uma ameaça potencial da Índia na fronteira oeste do Paquistão. O Paquistão se recusou a autorizar o transporte de suprimentos indianos pelas estradas do Afeganistão. Além disso, a inteligência militar paquistanesa (ISI) acusou a Índia de estar envolvida no fomento à oposição separatista armada na instável província paquistanesa de Baluchistan.

O jantar na Casa Branca não poderia fazer nada para resolver estes problemas. Sem dúvida alguma, Musharraf foi fortemente pressionado pelos EUA. para reprimir as forças do Taliban e da Al Qaeda que atuam no Paquistão. Mas as críticas públicas feitas por ele esta semana, tanto a Karzai quanto ao governo Bush, indicam que ele tem pouco espaço de manobra a respeito dos assuntos nacionais.

O próximo passo dos EUA é tentar estabelecer uma nova conversa tranqüila na Casa Branca. Um artigo na revista Time na semana passada afirmou: “Países chaves da OTAN, cujas tropas lutam na guerra contra o Taliban no sul do Afeganistão—Inglaterra, Canadá, Austrália e Holanda—consideraram a possibilidade de lançar um ultimato a Musharraf para acabar com o Taliban, prendendo seus líderes que atuam no Paquistão. Caso ele não faça isso, deverá arcar com as conseqüências”.

Tais “conseqüências” incluem o envio de tropas da OTAN ao Paquistão para reprimir e assassinar combatentes do Taliban. Bush declarou que, caso o exército norte-americano localize Osama bin Laden no Paquistão, ele espera que as forças norte-americanas cruzem a fronteira e “o agarrem”. Tal movimento poderia colocar os “aliados” numa rota de colisão. Como Musharraf disse à CNN: “Esta é uma região sensível. Nós operamos do nosso lado da fronteira e os EUA e seus aliados operam do outro lado. Vamos deixar as coisas assim. Nós não queremos que a nossa soberania seja violada”.

 



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