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Fábrica belga da Volkswagen é ocupada

"Chegou a hora de todos se levantarem e se politizarem!"

Por nossos repórteres
30 Noviembre 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 25 de novembro de 2006.

A fábrica da Volkswagen, Forest, localizada no leste de Bruxelas, foi ocupada por período integral durante toda a semana passada. Dos 5.800 trabalhadores da fábrica, 4.000 estão ameaçados de demissão, de acordo com a decisão da administração de transferir a produção do modelo Golf para a Alemanha.

O primeiro encontro entre o conselho de fábrica e o diretor de Recursos Humanos, Jos Kayaerts, mostrou-se ineficiente. A direção não está disposta a fazer concessões antes da reunião da comissão de diretores marcada para o dia 15 de dezembro. O Primeiro-ministro da Bélgica, Guy Verhofstaedt, planeja encontrar-se com o corpo executivo da Volkswagen no início de dezembro.

Por várias semanas, circularam rumores a respeito do possível corte de milhares de empregos e o ambiente entre os trabalhadores na fábrica tornou-se muito tenso. A confirmação da notícia veio finalmente a partir de uma transmissão de rádio, às 20h da sexta-feira, dia 17 de novembro. O turno da tarde reagiu decretando o início da greve. Duas horas depois, o turno da noite fez o mesmo.

Na quinta-feira, dia 23/11, Hans Spiliers, que há muito tempo trabalha na Volkswagen, falou com os repórteres do World Socialist Web Site, em frente à fábrica. "A notícia da rádio foi o gatilho, e os trabalhadores reagiram espontaneamente. Não foi o sindicato que chamou a greve. Desde então, todos os trabalhadores se recusaram a recomeçar suas atividades. Nenhum carro está sendo montado, e nós estamos assegurando que aqueles que já estão prontos não saiam da fábrica. A diretoria desapareceu da fábrica e nós tomamos o controle. Este tem sido o quadro desde o último fim-de-semana. Desde então, temos estabelecido turnos de trezentos a quatrocentos homens fazendo piquete em período integral, e eu acho que devemos nos preparar para uma greve bem longa".

A decisão não afeta somente 4.000 trabalhadores da Volkswagen (3.500 deles no setor produtivo, mais 500 em outros setores), mas indiretamente pelo menos o mesmo número de trabalhadores de fornecedoras subsidiárias, onde muitos trabalhadores expressam solidariedade com a greve. Duas subempresas—Faurecia, com 130 trabalhadores, e Decoma, com 100—também foram ocupadas.

Toda a região foi atingida duramente por anos de desemprego. Cerca de 300 trabalhadores da Volkswagen são ex-empregados da fábrica Vilvorde, da Renault, no norte de Bruxelas, que foi fechada recentemente. Esta é a segunda vez que estes trabalhadores têm que enfrentar o fechamento de uma fábrica no decurso de poucos anos.

A Volkswagen de Bruxelas não é somente uma empresa moderna e altamente produtiva. Sua força de trabalho é também altamente organizada e reconhecida por sua militância. Quase toda a equipe é representada por pelo menos três sindicatos ativos na fábrica—o socialista FGTB (Federação Geral dos Trabalhadores da Bélgica), o liberal CGSLB (Central Geral dos Sindicatos Liberais da Bélgica) e o cristão CSC (Confederação dos Sindicatos Cristãos).

Christian Henneuse e Jean Weemaels, dois delegados do FGTB na fábrica, disseram: "esta é uma fábrica militante e os trabalhadores daqui foram apontados, por muito tempo, como ‘terroristas econômicos'. Em 1994, ficamos por um mês em greve contra a introdução da jornada de trabalho semanal de 35 horas".

"Nossa fábrica é a única que não trabalha sob o sistema ‘mais-menos' de horas de trabalho, introduzido pela Volkswagen. Este é um sistema que subordina diretamente os trabalhadores às exigências do mercado capitalista. Agora eles estão tentando nos pressionar através de medidas legais, já que nós não concordamos com esse sistema de jornada de trabalho".

Ambos temem que a Volkswagen esteja planejando livrar-se da força de trabalho bem-organizada a fim de reiniciar suas atividades posteriormente com trabalhadores não-vinculados a sindicatos, que terão que trabalhar sob condições ainda piores. A mesma manobra foi realizada na Ford de Genk há poucos anos.

Quando perguntados a respeito do papel do IG Metall, sindicato alemão, os dois delegados do FGTB lembraram de uma reunião realizada na quinta-feira com três representantes daquele sindicato, que estavam visitando a fábrica. Os representantes do IG Metall vieram de Braunschweig, Kassel e Salzgitter, onde se localizam outras três fábricas da Volkswagen. "Eles nos disseram que os trabalhadores alemães também estão enfrentando a ameaça da transferência da produção, e estão sendo forçados a aceitar cortes de salários decorrentes do aumento da produtividade".

Os representantes do IG Metall prometeram informar seus camaradas trabalhadores na Alemanha e mobilizá-los. Eles comprometeram-se a não aceitar as demissões compulsórias em Bruxelas. "A mensagem dos representantes do IG Metall teve o sentido de afirmar o contrato, feito por eles mesmos, de que os ataques a seus empregos não poderiam ocorrer às custas de outras fábricas na Alemanha. Esta foi a primeira coisa que eles nos disseram".

Henneuse e Weemaels disseram também que o conselho de fábrica estava procurando maneiras de desenvolver um plano social aceitável que se contraponha às demissões propostas. Isso significa, basicamente, que o sindicato aceitou a destruição de 4.000 empregos. O conselho de fábrica reivindica que os salários continuem a ser pagos durante a greve, até o dia 15 de dezembro.

A diretoria da Volkswagen está propondo agressivamente a extinção de mais empregos. O representante da empresa, Dr. Reinhard Jung, estipulou o número de 4.000 trabalhadores a serem demitidos. Ele chegou a propor o fechamento completo da fábrica de Bruxelas.

Os dois delegados reclamaram o seguinte: "a imprensa publicou apenas entrevistas com trabalhadores que aceitam abrir mão de seus empregos em troca de algum tipo de verba destinada àqueles que sofrem demissões. Os jornais tentam desmoralizar as pessoas e apresentam um espetáculo de trabalhadores desesperados. Na verdade, a força de trabalho é muito militante e pronta para a luta".

Esta avaliação foi confirmada pelos trabalhadores à frente dos portões da fábrica. Após uma assembléia de fábrica na quinta-feira (23/11)—em que foram oficialmente informados a respeito das demissões—os trabalhadores expulsaram do prédio os seguranças da companhia e dois policiais. A situação ficou ainda mais tensa quando os trabalhadores ocuparam uma rua principal e a polícia respondeu lançando jatos d`água contra os trabalhadores.

Muitos dos trabalhadores explicaram por que não estão dispostos a ceder.

Alain Luystermans trabalhou para a Volks de Bruxelas por 28 anos. Ele disse aos nossos repórteres: "nós fechamos tudo. Nós podemos mudar qualquer coisa somente através de nossa própria solidariedade. Hoje nós estamos sendo atingidos. Amanhã pode ser qualquer um. As grandes empresas estão recebendo subsídios e vão onde podem para ganhar mais dinheiro. Nós não agüentamos mais. Mas os políticos também são culpados, aqui na Bélgica e por toda a Europa".

"Ao invés de criarem uma Europa para pessoas comuns, a Europa só serve às grandes empresas. Nós precisamos criar um futuro não somente para nós, mas também para a próxima geração".

Quando perguntado a respeito dos sindicatos europeus, ele respondeu: "os atuais sindicatos europeus não são nada além de marionetes. Nada tem sido feito em relação às reivindicações e este é o grande problema".

"Chegou a hora de todos se levantarem e se politizarem. Nunca é tarde, mas agora é realmente a hora certa".

Referindo-se à guerra no Iraque, ele comentou: "esta é uma guerra das grandes empresas. Gerações sofrerão por causa dela. Pessoas comuns não querem isso. Esta também é uma razão pela qual eu estou aqui. Eu estou aqui por eles, não somente por mim".

Ibisi Ramadam, um trabalhador árabe que trabalhou nas linhas de produção por cinco anos, descreveu o quadro miserável em que se encontra o mercado de trabalho: "a atual situação política é muito ruim para os trabalhadores, muitos estão desempregados. Há 12% de desemprego na Bélgica. Agora haverá mais 4.000 e eles não conseguirão achar outro emprego. Muitos têm família para alimentar. No momento, os sindicatos estão muito ativos, mas não sei se dá pra confiar neles. Não sei no que vai dar. O problema é o sistema capitalista".

Jesu Manchego, um trabalhador espanhol aposentado que trabalhou durante 30 anos na Volks, comenta: "muitos trabalhadores espanhóis, que anteriormente trabalhavam nas minas, vieram para cá quando a Volks abriu a fábrica, em 1972. Foi um período de fechamento de minas em grande escala. Eu mesmo nunca trabalhei nas minas, mas meu irmão sim. Eu comecei direto na Volks. A Volks comprou a fábrica de Bruxelas onde o Fusca era produzido".

"Éramos jovens e havíamos trabalhado em muitos lugares; trabalhar na Volks era melhor do que nas minas, onde o trabalho é desumano. Sempre ocorrem acidentes como este que aconteceu nesta semana na Polônia. Se eles transferirem a produção do Golf, isso contribuirá para o fechamento da fábrica. Ela não poderá sobreviver com o que sobrar".

Eddy de Martelaere explica: "4.000 trabalhadores estão atingidos aqui e não há outro trabalho. Estamos aqui para defender nossos empregos. Podemos até concordar com várias das promessas feitas, mas será que elas serão cumpridas? Existe aqui um sistema de produção bem definido, mas mesmo assim a fábrica inteira está sendo fechada".

"Isso só é possível pela atuação de chauvinistas como os do Vlaams Belang [partido nacionalista Flamengo]. Este é um grupo nacionalista ao extremo, ao qual me oponho totalmente".

"As grandes empresas operam internacionalmente. Os capitalistas jogam um setor de trabalhadores contra o outro. Logo após a transmissão da notícia a respeito das demissões em Bruxelas, o valor das ações da Volks subiu muito".

Uma manifestação internacional de sindicatos está marcada para o dia 2 de dezembro em Bruxelas, contra as demissões. Os trabalhadores da Volks de Bruxelas planejam participar, junto a trabalhadores de outras empresas subsidiárias.

 



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