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Greve de trabalhadores agrícolas do Sri Lanka entra num impasse

Por Socialist Equality Party (Sri Lanka)
23 Dezembro 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 19 de dezembro de 2006.

Meio milhão de trabalhadores agrícolas do Sri Lanka entrou na terceira semana de greve por reajuste salarial. Sua determinação contrasta com a atitude dos dirigentes sindicais, que são coniventes com a tentativa do governo para acabar com a greve o mais rápido possível.

Os trabalhadores do chá e da borracha, um dos mais humildes setores da classe trabalhadora da ilha, interromperam o trabalho no dia 5 de dezembro para exigir um salário diário de 300 rúpias (menos que US$3,00). Seu salário atual é de somente 135 rúpias por dia mais um adicional de até 60 rúpias. A Federação de Empresários do Sri Lanka (SLEF), representando as companhias agrícolas, ofereceu um reajuste de 30 rúpias no salário base e 25 rúpias de adicional.

A revolta entre os trabalhadores veio à tona porque eles não têm reajuste desde meados de 2004. Todos os trabalhadores do país foram surpreendidos pela alta nos preços das mercadorias. Eles recebem por dia trabalhado. Vários deles não recebem o adicional completo, que depende da presença, da produção e dos preços.

Desde o início, os sindicatos têm procurado conter a oposição e limitar as reivindicações. Os dois principais sindicatos agrícolas — o Congresso dos Trabalhadores do Ceilão (CWC) e o Front da População Ativa do país (UPF) — funcionam também como partidos políticos e são parte da coalizão que governa atualmente. Seus líderes são mais leais ao governo do que aos trabalhadores. O governo, por sua vez, está desesperado diante da possibilidade da greve ganhar força.

O CWC e o Sindicato dos Trabalhadores do Estado de Lanka Jathika (LJEWU) se opuseram à greve desde o início, mas a base desafiou as direções. Como resultado, a difícil função de conter os trabalhadores militantes ficou a cargo do UPF e de diversos outros sindicatos menores, que fizeram de tudo para controlar a luta dentro de certos limites.

O líder do UPF, P. Chandrasekaran, apelou várias vezes para que confiassem no presidente, Mahinda Rajapakse. Na última sexta-feira, Rajapakse demonstrou qual era a sua posição. Ele convocou uma reunião especial de gabinete para tratar sobre a greve e disse a Chandrasekaran que convencesse os trabalhadores a concordar com a oferta da SLEF.

Rajapakse declarou que o país não pode permitir a continuidade da greve, pois a economia já se encontra em crise, com elevados índices de inflação e uma queda das reservas em moeda estrangeiras. Ao longo dos anos, o atual governo levou o país novamente à guerra e elevou o orçamento em 45%, para 139 bilhões de rúpias anuais, o que equivale a 38 milhões de rúpias por dia, a fim de pagar as bombas lançadas sobre alvos civis. Para financiar a despesa com a guerra, o governo está tomando dinheiro emprestado nos mercados estrangeiros e exigindo que a classe trabalhadora carregue a inevitável sobrecarga econômica.

Encarando uma greve de massa que ameaça crescer, Rajapakse está mais uma vez usando o disfarce de defensor das comunidades. Ele preveniu Chandrasekaran de que se a greve não cessasse imediatamente, os Tigres de Libertação Tamil Eelam (LTTE) poderiam se “infiltrar nas fazendas”. Rajapakse está provocando deliberadamente suspeitas na comunidade para dividir os trabalhadores Tamil e Sinhala e construir as condições para reprimir duramente os grevistas, caso seja preciso.

A imprensa previu um rápido fim da greve. Na segunda-feira, Chandrasekaran e o líder do Front dos Trabalhadores Unidos (WUF), S. Sathasivan, organizaram uma palestra do ministro do trabalho, Mervin Silva, para os líderes dos sindicatos, em Hatton. Suspeitando de que ali seria feita uma manobra contra a greve, centenas de trabalhadores dos diversos distritos agrícolas foram a Hatton ouvir o que o ministro tinha a dizer.

Numa discussão calorosa, os trabalhadores, revoltados, vaiaram Silva repetidas vezes, enquanto ele insistia que os trabalhadores tinham de ser “flexíveis” e aceitar a oferta das companhias. Operários exigiram saber por que as companhias não poderiam reajustar os salários, uma vez que os gerentes recebem 150.000 rúpias por mês, além de outras bonificações. Porque o governo gasta com a guerra, mas diz não poder atender as reivindicações dos trabalhadores? E onde ficaram as promessas feitas na campanha presidencial de novembro de 2005, quando o atual presidente garantiu uma vida melhor aos trabalhadores agrícolas?

Assim que o encontro começou, policiais armados entraram no hall, mas os trabalhadores não se intimidaram. Silva pediu que os trabalhadores não culpassem Rajapakse, mas foi novamente vaiado. Diante da rebelião, Chandrasekaran mudou abruptamente sua posição, declarando que ele não estava ali para pedir aos trabalhadores que terminassem ou continuassem a greve. Os “trabalhadores devem decidir”, declarou ele, tentando manobrar uma votação para acabar com a greve. Todavia, o sentimento predominante entre os trabalhadores era pela continuidade do movimento.

Após o encontro, o CWC redobrou seus esforços para causar um racha entre os grevistas, fazendo um acordo separado com os empresários. Na tarde de ontem, R. Yogarajan, oficial do CWC, disse à imprensa que a greve “foi longe demais” e anunciou novas negociações. O CWC já diminuiu a reivindicação de reajuste para 270 rúpias e está preparado para baixá-la ainda mais, diante da afirmação dos representantes da Associação de Comerciantes do Chá de que um salário diário de 300 rúpias tornaria a indústria “inviável”.

Um perigo político muito maior é a intervenção direta do Janatha Vimukthi Peramuna (JVP), supostamente do lado dos grevistas. Ontem, todos os sindicatos envolvidos na guerra, incluindo a União de Todos os Estados do Ceilão (ANCTU) do JVP, se reuniram no Centro Nacional de Sindicatos (NTUC), filiado ao JVP. O líder do NTUC e o membro do parlamento do JVP, Lal Kantha, declararam após a reunião que o JVP chamaria uma greve geral na ilha, caso as reivindicações dos trabalhadores agrícolas não fossem atendidas.

Sem sombra de dúvidas, a população é muito simpática às reivindicações dos trabalhadores agrícolas. Uma greve geral na ilha envolveria inevitavelmente uma luta política contra o governo de Rajapakse, sobretudo contra sua exigência de que a classe trabalhadora se sacrifique por sua guerra reacionária. O JVP, todavia, é o mais vêemente defensor da guerra contra o LTTE e totalmente contra tal campanha.

A ameaça do JVP por uma greve geral é um truque que tem como objetivo jogar poeira nos olhos dos trabalhadores, enquanto por trás da cena o sindicato prepara um esquema para acabar com a greve. O JVP já está indicando o limite a Rajapakse. Numa entrevista coletiva à imprensa, Lal Kantha pediu ao presidente que interviesse e nomeasse uma comissão para investigar a corrupção nas fazendas. A idéia da criação de comissões do governo para investigar as reclamações dos trabalhadores tem sido frequentemente utilizada no Sri Lanka como um meio para acabar com as mobilizações. O resultado é sempre o mesmo: depois do fim da greve, a comissão “investiga”, durante meses, e finalmente conclui que as reclamações eram infundadas.

Os trabalhadores em greve não podem confiar nas direções dos sindicatos. O CWC e o UPF fazem parte do gabinete de Rajapakse, que levou o país novamente à guerra, aprofundou os ataques aos direitos democráticos e implementou as exigências do FMI em relação aos cortes e a privatização de serviços sociais. A única razão do JVP não estar no governo é que ele defende uma guerra geral contra o LTTE, o que sobrecarregaria ainda mais a classe trabalhadora. Todos esses partidos aprovaram o retorno do Ato de Prevenção do Terrorismo (PTA), sob o qual milhares de tamis, incluindo operários agrícolas, foram anteriormente detidos, e em diversos casos torturados sem julgamento, por serem “suspeitos integrantes do LTTE”.

A greve alcançou um ponto decisivo. Se for deixada nas mãos das direções do sindicato, será traída. Ao invés de esperarem para ver o que Chandrasekaran e Lal Kantha farão, os trabalhadores em greve devem, eles próprios, tomar a iniciativa. Ao invés de esperarem o resultado das reuniões dos dirigentes sindicais, os trabalhadores devem criar comitês independentes em todas as fazendas e enviar delegações para uma reunião de massa central, a fim de planejar uma estratégia.

As reivindicações dos trabalhadores agrícolas estabelecem claramente uma ligação entre a classe trabalhadora urbana e agrícola. O Socialist Equality Party (SEP) chama todos os trabalhadores a apoiarem sua campanha e formar comitês dos trabalhadores para dar apoio aos grevistas na formulação de suas próprias reivindicações por melhores salários e condições de trabalho decentes. Os trabalhadores não deveriam ter nenhuma ilusão. Tal movimento envolverá um confronto com o governo. Por isso ele deve ter uma estratégia política clara.

O SEP luta pelo seguinte programa socialista e internacionalista:

O limitado reajuste salarial proposto pelos sindicatos não será suficiente para acabar com o sofrimento e com as dificuldades dos trabalhadores agrícolas. Nós reivindicamos a transformação do sistema de salário diário por um sistema de salário mensal, que garanta pelo menos 15.000 rúpias, além do pagamento das horas extras, pensões e afastamento por motivo de saúde. Os salários deverão ser reajustados de acordo com a elevação do custo de vida.

Os trabalhadores necessitam de moradias, educação e saúde decentes. Todos os trabalhadores agrícolas devem ter acomodações apropriadas, com condições básicas de sobrevivência, incluindo água encanada e luz elétrica. Um padrão de vida decente deveria ser um direito, não um privilégio. A sociedade deve ser reorganizada numa base socialista, de forma que as necessidades da maioria da população humilde tenham prioridade sobre os lucros da minoria rica.

Os trabalhadores devem rejeitar todas as exigências de “sacrifício à nação”. Nenhum centavo, nenhum homem para esta guerra aberta. O SEP exige o fim da ocupação militar do norte e do leste, e a retirada imediata e incondicional de todas as forças de segurança.

Rejeitamos de todas as formas de nacionalismo e racismo e convocamos os trabalhadores—Tamil, Sinhala e Muçulmanos—para unirem-se e lutarem pela República Socialista do Sri Lanka e Eelam, como parte de uma união maior de repúblicas socialistas do sul da Ásia e de todo o mundo.

Nós pedimos aos trabalhadores agrícolas que considerem este programa seriamente, e acessem o World Socialist Web Site publicado pelo SEP e seus partidos irmãos ao redor do mundo. Além de tudo isso, chamamos a classe operária e a juventude para se unir e construir o SEP como o partido de massas da classe operária, indispensável na luta por essa perspectiva.

 



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